Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Onyx vê mérito em reformas de Pinochet e diz que ditador 'teve que dar banho de sangue'

O ministro-chefe da Casa Civil afirmou que para adotar medidas macroeconômicas, Chile 'teve que dar um banho de sangue', já, no Brasil, o único sangue derramado foi o do presidente Jair Bolsonaro

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2019 | 15h45
Atualizado 22 de março de 2019 | 11h24

BRASÍLIA - No mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao Chile, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, elogiou o governo do ditador chileno Augusto Pinochet e afirmou que ele “teve que dar um banho de sangue” para adotar medidas macroeconômicas no país.

“No período Pinochet, o Chile teve que dar um banho de sangue. Triste. O sangue lavou as ruas do Chile, mas as bases macroeconômicas fixadas naquele governo... Já passaram oito governos de esquerda e nenhum mexeu nas bases macroeconômicas colocadas no Chile”, disse em entrevista à Rádio Gaúcha.

Ele já havia dado a declaração semelhante em entrevista ao Estadão/Broadcast na segunda-feira passada, quando comparou o “banho de sangue” da ditadura chilena à facada levada pelo presidente na campanha eleitoral. O objetivo era defender a proposta de reforma da Previdência do governo Jair Bolsonaro.

“É uma coisa curiosa até do ponto de vista histórico. No Chile, uma coisa sangrenta, e o Chile se rearrumou. No Brasil foi o (sangue) dele (Bolsonaro), e graças a Deus ele está aí firme e forte”, disse Onyx na ocasião.

“Mas a gente está propondo caminho muito similar ao do Chile (em relação ao modelo previdenciário), e melhor. Muito melhor. O Chile também teve lá seus problemas porque fundo de capitalização sempre é coisa complicada, de vez em quando aparece um espertalhão”, afirmou.

Após a saída do ditador chileno da Presidência, em março de 1990, o país teve apenas cinco presidentes – e não oito, como citado por Onyx. Além disso, nem todos são de esquerda, como é o caso do atual presidente, Sebastián Piñera (2010-2014 e desde 2018). 

Pinochet liderou um golpe militar em 1973 e ficou no poder por 17 anos – período considerado um dos mais sangrentos da América Latina. Ele morreu em 2006.

Nesta quinta-feira, 21, em entrevista à rádio, o ministro repetiu o raciocínio e foi alvo de críticas dos ouvintes. Ao final, questionado sobre o que quis dizer com a declaração e ciente da repercussão, reagiu: “Provavelmente, a turma da esquerda se incomodou porque eu reconheci algum mérito no governo”. 

Alertado de que as críticas se davam pela referência ao “banho de sangue”, reagiu. “E no Brasil, que o presidente teve de dar seu sangue? Ninguém ficou revoltado?”, questionou.

Bolsonaro

Ao chegar a Santiago, no final da tarde de quinta, Bolsonaro disse que a “dita ditadura” em países da América do Sul precisa ser levada à luz da verdade. “Eu não vim aqui falar sobre Pinochet, tem muita gente que não gosta dele, outros que gostam”, disse Bolsonaro sobre a fala de Onyx. “Nós chegamos a uma conclusão e pacificamos. Não podemos dar voz à esquerda, que sempre tem um lado para dizer que aquele lado estava certo e não o outro”, afirmou.

Ainda como deputado, em 2006, Jair Bolsonaro, tentou enviar uma mensagem de solidariedade ao neto de Pinochet, Augusto Pinochet Molina, após esse ter sido afastado do Exército por ter feito pronunciamento no sepultamento do avô. Na mensagem, Bolsonaro afirma sua admiração por Molina não ter se curvado às "mentiras da esquerda" e fala do "saudoso" General Pinochet. O telegrama foi negado pelo Ministério das Relações Exteriores.

No final de 2018, um dos filhos do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, defendeu Pinochet, sobretudo economicamente, em visita ao Chile. Em entrevista ao jornal La Tercera, Eduardo disse que o ditador, cujo regime matou mais de 3 mil pessoas e torturou mais de 30 mil, "impediu que o Chile.se transformasse em uma nova Cuba".

No mês passado, Bolsonaro já havia homenageado outro ditador sul-americano. Em evento em Foz do Iguaçu ao lado do presidente do Paraguai, Mario Abdo, elogiou o papel do general Alfredo Stroessner na construção da Usina da Itaipu.

“Isso tudo não seria suficiente se não tivesse do lado de cá um homem de visão, um estadista, que sabia perfeitamente que o seu país, Paraguai, só poderia prosseguir e progredir se tivesse energia. Então aqui também a minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner”, disse o presidente na ocasião.

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