Gabriela Biló/Estadão - 12/02/2020
Gabriela Biló/Estadão - 12/02/2020

'Open banking vai gerar novos produtos a clientes', diz diretor de Regulação do Banco Central

Executivo aponta que lançamento da segunda fase do programa, em agosto, vai produzir maior concorrência no mercado e ressalta que compartilhamento de dados terá o 'maior nível de segurança possível'

Entrevista com

Otavio Ribeiro Damaso, diretor de Regulação do Banco Central

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - A segunda fase do open banking, que foi adiada para agosto, vai abrir definitivamente o caminho para o desenvolvimento de novos produtos e serviços financeiros no Brasil. O open banking é um sistema de compartilhamento de dados, informações e serviços financeiros pelos clientes bancários em plataformas de tecnologia, mediante autorização. A ideia é que, com o compartilhamento, os clientes possam ter acesso a melhores taxas, prazos e serviços financeiros. 

Embora os efeitos não sejam instantâneos, a expectativa do Banco Central é de que o novo sistema mude a forma como o brasileiro compra imóveis, adquire planos de previdência e investe seu dinheiro. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o diretor de Regulação do BC, Otavio Ribeiro Damaso, projeta maior facilidade de acesso ao crédito imobiliário com o open banking. Além disso, a partir da quarta fase, quando o sistema se transformará no open finance, Damaso espera que haja redução de custos para quem acessa fundos de investimento e planos de previdência privada. Abaixo, trechos da entrevista.

Por que motivo houve o adiamento da segunda fase para 13 de agosto? Isso vai atrasar as fases posteriores?

Foi um ajuste muito pontual, a pedido da governança do próprio open banking (estrutura criada por imposição do BC e gerida pelo mercado financeiro para monitorar o sistema 24 horas por dia, 7 dias por semana, e garantir a sua segurança), que está no processo de finalizar os últimos testes e achou que valeria a pena a gente postergar por mais um mês a entrada do processo para concluir todos os testes possíveis e imagináveis com tranquilidade. Então, é um ajuste pontual, natural num processo de implementação de uma iniciativa com a envergadura que é o open banking. O calendário das outras fases não foi alterado.

O sr. costuma dizer que o open banking será como a internet que, quando foi lançada, ninguém sabia ao certo o que se tornaria. Por que será tão revolucionário? 

Em sua origem, a internet era usada para a troca de conhecimento entre instituições de ensino americanas. Com o tempo, as pessoas foram percebendo que ela poderia gerar outros negócios. O open banking é parecido. Estamos criando uma plataforma, e nossa expectativa é de que, a partir dela, vários produtos e serviços financeiros sejam desenvolvidos. 

Como isso será possível?

O open banking tem algumas características. A primeira delas é a questão de ser uma iniciativa que, de fato, coloca o cidadão no centro das decisões em relação a seus dados financeiros. O segundo ponto é a padronização das informações. Hoje, há fintechs (startups do setor financeiro) que buscam informações em diferentes instituições para ofertar serviços, mas o acesso é difícil. As instituições nem sempre permitem, e os dados não chegam padronizados. Isso vai mudar no open banking. O terceiro aspecto é que os dados vão fluir de forma digital. Assim, o que o Banco Central está fazendo é criar uma plataforma para que o próprio mercado possa se desenvolver.

A segunda fase do open banking é quando os clientes poderão autorizar o acesso das instituições a suas informações. É a partir daí que começam a surgir os novos serviços?

O open banking é uma jornada. A partir do dia 13 de agosto, muitas coisas começarão a funcionar, mas não necessariamente o mundo vai mudar no dia 14. As instituições vão começar a desenvolver os produtos com as funcionalidades que estarão prontas. É como se no dia 13 de agosto a internet estivesse pronta, mas as empresas ainda estariam desenvolvendo produtos para utilizar na plataforma. O desenvolvimento já começou, na primeira fase. Eu cito sempre o exemplo do cheque especial. No caso de alguém que utilize cheque especial em determinado banco, uma segunda instituição poderá oferecer crédito rotativo, mais barato e em volume maior, quando necessário. A cobertura do saldo poderá ser automática. 

Pode citar outro exemplo?

No financiamento imobiliário, dados o volume envolvido e o prazo, o cliente está disposto a procurar o crédito em outras instituições. No open banking, vai aparecer no meio do caminho uma fintech que buscará em todas as instituições financeiras as informações sobre a oferta de crédito imobiliário e reunirá isso para o cliente. Assim, quando ele entrar na plataforma, terá a informação de que no banco A o crédito está saindo a 5% ao ano, no banco B, a 4,8% ao ano, e no banco C, a 5,2% ao ano. Isso vai ser feito quase instantaneamente. E o cliente vai escolher a instituição com a melhor oferta.

Fornecer os dados será seguro?

Tudo o que o Banco Central faz é com o maior nível de segurança possível. A segurança é, inclusive, o pilar de uma instituição financeira. Você só aceita depositar seu salário em um banco porque tem segurança da solidez da instituição. Assim, a segurança do open banking é igual à de todos os outros sistemas do sistema financeiro. 

Hoje temos o problema das financeiras, que muitas vezes fazem ofertas excessivas de produtos a determinados públicos. Isso é uma preocupação no open banking?

No open banking, o cliente é que autoriza o uso das informações. Se ele autorizou uma instituição a ter acesso a seus dados, isso pode ser para um fim específico ou para algo mais amplo. Ele vai poder cancelar a qualquer momento a autorização. 

Entenda o novo sistema:

  • O que é open banking?

É um sistema que vai permitir o compartilhamento de dados dos clientes entre instituições financeiras – bancos, fintechs e cooperativas de crédito –, desde que autorizado pelo consumidor. 

  • Como o open banking funciona?

A comunicação entre os bancos se dará por meio de APIs (Application Programming Interface). É uma tecnologia semelhante à que se utiliza no compartilhamento de logins entre sites – por exemplo, quando os dados de autenticação de uma rede social são usados para logar no sistema de uma plataforma de streaming. 

  • O que muda para o consumidor?

O open banking deve proporcionar uma igualdade de condições para as instituições financeiras em termos de ofertas, o que deve aumentar a concorrência entre elas e garantir melhores oportunidades para o consumidor. Tendo acesso a propostas de diferentes instituições, ele poderá escolher o produto mais adequado e com condições melhores. No futuro, em apenas um aplicativo será possível gerenciar produtos e serviços de 2, 3 e até mais bancos. 

  • O open banking é seguro?

O Banco Central garante que sim. Os dados ficarão dentro das bases dos bancos, como já ocorre hoje. Não existirá centralização das informações em “nuvem”. 

  • Qual é o cronograma de implementação?

A partir de 13 de agosto, os clientes passam a ter acesso ao open banking, podendo autorizar o compartilhamento de dados com instituições financeiras com as quais ainda não têm relacionamento. Nessa fase, será possível trocar informações sobre cartões de crédito e operações de crédito. A partir de 30 de agosto, será possível realizar transações entre instituições financeiras por meio do sistema, não só compartilhar dados. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.