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Opep contra a parede

A questão em aberto é se essa recuperação do preço será abrupta ou mais branda

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2018 | 04h00

A reunião da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), marcada para os dias 6 e 7 de dezembro, está atraindo grande atenção dos investidores globais em meio a uma surpreendente queda de quase 25% no preço do barril desde o início de outubro apesar de os Estados Unidos terem anunciado sanções ao petróleo do Irã, retirando do mercado a oferta do terceiro maior produtor do cartel.

É que desde junho deste ano países com importante capacidade ociosa, como Arábia Saudita e Rússia, passaram a aumentar os níveis de produção, recuperando a redução acordada pela Opep em 2017, quando o mercado enfrentava então um excesso de oferta. Em relatório divulgado na terça-feira, a Opep informou que sua produção teve aumento de 127 mil barris por dia (bpd) em outubro para um total de 32,9 milhões.

Além disso, apesar das sanções anunciadas contra o Irã, o presidente Donald Trump abriu isenções temporárias a alguns compradores do petróleo iraniano. Contribuiu também para exacerbar o excesso de oferta atual, uma produção maior de petróleo pelos Estados Unidos, os quais, ainda por cima, reportaram um corte na capacidade de processamento de parte de suas refinarias.

Sem falar na desaceleração da atividade econômica na zona do euro e na China no terceiro trimestre. Resultado: com o aumento da oferta e redução da demanda, o preço do barril do petróleo Brent, que havia atingido US$ 86,29 em 3 de outubro, fechou ontem em queda de 6,63%, para US$ 65,47.

No fim de semana passada, autoridades da Opep+ (membros do cartel e de grandes produtores fora dele, como a Rússia) deram indicações de que vão chegar a um acordo para reduzir novamente a produção de petróleo em 2019. Mas ainda há dúvidas dos investidores: de quanto será o corte de produção e por quanto tempo?

De um lado, a Arábia Saudita disse que vai exportar 500 mil de bpd a menos já em dezembro e que o corte de produção em 2019 pelo Opep deveria ser de 1 milhão de bpd com base nos níveis de outubro. De outro, o ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak, disse que os produtores não podiam tomar uma decisão tão apressada e que era preciso esperar para ver o impacto na economia mundial da guerra comercial entre EUA e China, além do efeito integral quando as sanções contra o Irã estiverem em total vigência.

Mas o próprio Novak estimou um excesso de oferta de petróleo entre 1 milhão e 1,4 milhão de bpd no primeiro semestre de 2019, o que leva a crer que, teoricamente, os russos estariam dispostos a contribuir com um acordo para o corte da produção no ano que vem em relação aos níveis registrados em outubro, quando os russos produziram 11,6 milhões de bpd. Quem não está gostando da ideia de um acordo é o presidente Trump, que nesta semana usou o Twitter para pressionar a Arábia Saudita e o restante da Opep a não cortarem a produção e manterem os preços baixos.

Muitos analistas internacionais dizem que qualquer acordo para redução da produção abaixo de 1 milhão de bpd em 2019 levará a mais uma rodada de queda no preço do barril de petróleo. Se os membros da Opep+ surpreenderem e cortarem 1,4 milhão de bpd – justamente o topo da estimativa do excesso de oferta feita pelo ministro russo –, o preço do petróleo deve subir fortemente de imediato.

Todavia, será um choque se nenhum acordo para corte de produção não for anunciado na reunião do cartel no início do mês que vem. Daí, o preço do barril desabaria.

Sem uma visibilidade clara sobre o que vai acontecer com a economia mundial em 2019, em razão de um possível agravamento da guerra comercial, fica difícil imaginar os países da Opep+ fecharem um acordo com uma duração além de seis meses. O mais provável é concordarem com uma redução da produção e reverem essa posição ao fim do primeiro semestre de 2019.

Por enquanto, é unânime entre analistas a visão de que dificilmente o preço do barril do petróleo Brent permaneça no patamar atual, abaixo ou ao redor de US$ 70, em 2019. Juntamente com a entrada em vigor de uma sanção integral às compras do petróleo do Irã, a Opep+ deve reduzir sua produção, pelo menos para os primeiros seis meses do ano que vem. Mas a questão em aberto é se essa recuperação do preço será abrupta ou mais branda, a depender do fôlego da economia mundial e das tensões geopolíticas.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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