EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Operador de colhedora agrícola tem salário de universitário em Buri

Piloto de colheitadeira desponta como uma das profissões mais valorizadas do campo

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 19h25

BURI – A bordo de uma colhedora agrícola de R$ 1,4 milhão, no conforto do ar condicionado, o operador de máquina Lourival Obnesorg, de 47 anos, aciona o piloto automático e observa os painéis que medem o índice de perdas e de umidade dos grãos de soja que vão enchendo o reservatório de carga. Nos últimos dez anos, desde que deixou de roçar pasto e arrancar feijão à mão, ele passou de motorista de caminhão e tratorista para uma das profissões mais valorizadas do campo: “piloto de colheitadeira”, como dizem por lá.

Lourival é um dos nove funcionários de campo da fazenda Jequitibá do Alto, em Buri, no sudoeste paulista, e tem um ganho bruto mensal de R$ 2,8 mil, equivalente ao de um professor da rede municipal com curso superior. Mesmo tendo apenas o segundo grau, Obnesorg tornou-se perito em máquinas com alta tecnologia embarcada, como colhedoras, pulverizadores e plantadeiras, acompanhado a evolução do trabalho no campo.

“Comecei com o trator, estudando tudo sobre a máquina, depois fiz curso de operação de plantadeira em Ponta Grossa (PR) e, há cinco anos, peguei a primeira colheitadeira”, conta.

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O operador conhece todos os detalhes do equipamento e, mesmo com o piloto automático em operação, interfere para melhorar o desempenho. “A máquina pode fazer muita coisa sozinha, mas não gosto de ficar só olhando”, diz. No período de safra, Obnesorg trabalha até dez horas por dia, mas não precisa ir longe para estar em casa. Ele mora numa casa confortável, na propriedade, com a esposa Janaína e as filhas Ingrid, de 13 anos, e Talita, de 5 – a moradia, água e energia são fornecidas pela fazenda, como benefícios. As crianças vão para a escola, na cidade, em ônibus da prefeitura.

O produtor rural Frederico D'Ávila, dono da fazenda, conta que, além dos homens de campo, tem outros cinco funcionários que mantêm o secador, os silos, o sistema de irrigação com 13 pivôs centrais e a área administrativa. “São 15 funcionários comigo, pois exerço a função do administrador, fazendo a programação da safra, definindo as áreas de plantio, cultivares e cuindando da comercialização."

Ele conta que a maior parte dos trabalhadores está na fazenda desde que ela era administrada pelo seu pai, o engenheiro Aluizio Monteiro D'Ávila. “Não é uma mão de obra fácil de achar, por isso investimos na qualificação daqueles que se interessam, têm cuidado com os equipamentos e são leais com a empresa.”

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É o caso do operador Aguinaldo Batista, de 44 anos, que começou a trabalhar com o pai de Frederico e já foi braçal, roçando pasto e construindo cercas. Além de trator e colhedora, ele fez curso para operar o pulverizador, equipamento de alta sensibilidade e muita tecnologia. “É tudo controlado por computador e GPS, mas a gente precisa estar preparada para intervir na hora certa, corrigindo alguma operação ou passando algum posicionamento por rádio para o companheiro em outra máquina”, descreve.

Aguinaldo tem dois irmãos que também abriram mão de carreiras na cidade para permanecer no campo, na Jequitibá do Alto. Marcelo também opera máquinas e Edinelson trabalha no setor administrativo. Com os nove funcionários de campo, D'Ávila cultiva 1,5 mil hectares por ano, produzindo 9,6 mil toneladas de grãos – cerca de 30% de soja. “Se terceirizasse o secador e o transporte, poderia ter ainda menos mão de obra, mas prefiro ter todo o processo sob nosso controle”, disse.

Cidade. O frentista Eliel Soares, de 33 anos, já teve os dois pés no campo, em Capão Bonito, cidade da mesma região, mas não conseguiu acompanhar a evolução do setor. “Foram seis anos trabalhando na propriedade rural do meu sogro, num sistema em que eu era meio empregado e meio comodatário. Não tinha registro em carteira, folga ou férias. Fazia de tudo, desde tirar leite até arar a terra com trator, mas não aguentei”, reconhece. Ele conta que a propriedade, pequena para os padrões da região, não comportava máquinas com muita tecnologia.

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Sem vislumbrar chances de melhorar a renda, ele se preparou para disputar um emprego na cidade fazendo um curso técnico de auxiliar administrativo e o primeiro ano de curso superior em administração. Acabou conseguindo emprego de frentista, num posto de combustíveis. “Tive que disputar uma vaga com muitos trabalhadores rurais que deixaram o campo, mas acabei acertando.”

Soares conta que, entre salário e benefícios, como cesta básica e cartão de alimentação, tira cerca de R$ 2 mil mensais e se considera bem remunerado para a função que exerce. O ganho, segundo ele, é o suficiente para manter a família – ele, a mulher e uma filha de dez anos. “Meus pais ainda moram no campo, mas meu irmão também já veio para a cidade.”

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