Operadoras criam pacotes turísticos só para compras

Real valorizado em relação ao dólar e peso dos impostos no Brasil tornam as compras nos Estados Unidos mais vantajosas

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Cartazes avisando que os vendedores falam português são cada vez mais comuns nos centros de compras dos Estados Unidos. O tráfego de brasileiros nos outlets e magazines no exterior cresceu tanto que o turista local é tratado como realeza no comércio. Percebendo essa tendência, as agências de turismo se preparam para atender especificamente às demandas da clientela: criaram pacotes em que passeios e atrações são praticamente ignorados em favor das liquidações e descontos.

De olho no aumento do poder de compra do consumidor brasileiro, a CVC já oferece dois destinos exclusivos para compras: Miami e Buenos Aires. Em Nova York, a empresa montou um pacote em que a visita ao outlet Woodbury, a uma hora e meia de ônibus de Manhattan, divide a lista de passeios com o Empire State Building e a Estátua da Liberdade. Agências ao redor do País oferecem o pacote para a Black Friday, durante o feriado de Ação de Graças, em novembro - tradicional período de descontos do varejo americano.

Todas as semanas, a CVC leva 15 passageiros por semana para Miami no pacote dedicado às compras, vendido a US$ 1.588. Segundo Valter Patriani, presidente da operadora de turismo, boa parte da demanda pelos descontos está disfarçada nas viagens de lazer. "Se fosse contabilizar mais corretamente, diria que pelo menos 200 pessoas viajam semanalmente tendo as compras como objetivo principal", afirma o executivo. A empresa levou 500 mil turistas brasileiros ao exterior em 2010, e prevê uma alta de 10% para este ano.

Com o real valorizado, aumentou a percepção da diferença entre os preços praticados no Brasil e no exterior. Além do fator cambial, outro elemento econômico ajuda a evidenciar a vantagem da compra de determinados produtos fora do País: a carga tributária. Os perfumes importados pagam tributos de 78% no mercado nacional, de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT). Outros itens prioritários na lista dos viajantes, como bebidas alcoólicas e relógios, têm carga tributária da ordem de 60%.

Para o economista Mauro Rodrigues, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coautor do livro Sob a Lupa do Economista, é muito difícil prever quando a situação do câmbio vai mudar no País. Enquanto o Brasil continuar a atrair investidores, diz ele, é improvável que o real se desvalorize. Segundo o Banco Central (BC), a entrada líquida de dólares no Brasil somou US$ 42,6 bilhões até o início de junho de 2011, seis vezes o montante verificado em igual período do ano passado. "O Brasil se revelou sólido na crise. E o mercado aponta isso", diz Rodrigues.

Mimos. Um dos pacotes tradicionais no País é o que inclui as ofertas da Black Friday, em Nova York. Vendido por agências ao redor do País por pouco menos de US$ 3 mil, o roteiro inclui outlets da região, a tradicional 5ª Avenida, o bairro boêmio Soho e a loja de departamentos Macy"s. Segundo as agências que oferecem o pacote, é uma chance de o consumidor brasileiro comprar grifes famosas com desconto de mais de 70%.

A agência Top Travelling, de Lajeado (RS), é uma das que ofertam a viagem. De acordo com a sócia da empresa, Samanta Pinto, a procura pelo pacote de compras em Nova York está mais forte em 2011. "No ano passado, atingi o recorde, com 48 passageiros. Para este ano, reservei 58 lugares e tenho 39 vendidos, com cinco meses de antecedência. Vamos superar o número de 2010 com certeza", diz a empresária.

Samanta explica que os dias de compras são organizados para que os passageiros aproveitem o maior número de ofertas. Na visita à Macy"s, a programação começa por volta das 5h - a ideia é que os turistas percorram os 12 andares da loja em busca de pechinchas. Nos outlets, cada pessoa ganha um walkie talkie: toda vez que estiver com as mãos cheias de sacolas, aciona o guia, que recolhe as compras para o ônibus. "Às vezes, as pessoas se perdem em meio às compras. No ano passado, não conseguíamos achar dono para uma das sacolas."

A corretora de seguros Cândida Marchese já aproveitou as ofertas da Black Friday duas vezes - gasta, em média, R$ 10 mil por viagem. "Não vou com lista na mão, mas faço compras comparativas. Entre os itens que eu mais compro estão os casacos de inverno e maquiagem", afirma. Como a viagem acontece em novembro, Cândida diz que pode ser uma boa forma de antecipar as compras de Natal com economia. "Ainda estou decidindo se vou pelo terceiro ano."

Cuidados. No entanto, para que as ofertas não virem prejuízo, é preciso tomar alguns cuidados. O primeiro deles é prestar atenção às cotas da Receita Federal. A fiscalização tem direito de checar as bagagens e de cobrar o imposto devido sobre determinados itens. "Mesmo nos pacotes exclusivos para compras, orientamos os guias a prevenir os passageiros contra exageros", afirma Valter Patriani, da CVC. "É sempre bom lembrar as pessoas da Alfândega."

Na opinião do executivo, o viajante de compras experiente já percebeu o que vale a pena adquirir fora do País. "No caso dos eletrônicos, a vantagem não é mais tão grande. Ninguém vai ver pessoas trazendo TV de plasma dos Estados Unidos. Vale mais pagar um pouco mais aqui e parcelar, ter a garantia", diz Patriani. A diferença dos preços das roupas, no entanto, é óbvia. "É possível comprar roupas de marcas famosas lá fora pelo preço de peças comuns no Brasil."

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