Oportunidade além de cotas

Com a Lei das Cotas (Lei 8.213/91), o governo federal pretendia criar uma cultura de inclusão social no meio corporativo que, simultaneamente, gerasse um novo comportamento social. Entretanto, com as cotas, vieram as consequências para as corporações que não as cumprissem.

VICE-PRESIDENTE DE RH DA NEOGRID, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h12

Assim, o que seria positivo, limitou-se, em grande parte das empresas, a mais uma obrigação. Como profissional de recursos humanos, julgo inevitável questionar: será essa uma maneira eficiente para incentivo a novas políticas e comportamentos?

A conscientização poderia ser feita a partir de ações mais brandas, com parcerias entre sociedade, governo e empresas. Porém, sabemos que a realidade não é tão simples assim. Entendo que o estabelecimento de cotas também é uma forma válida e que, com ela, é possível gerar, sim, resultados capazes de minimizar o problema em menor espaço de tempo. Se não fosse assim, talvez nada tivesse sido feito até hoje. A discussão deve ser outra: como preencher as cotas, não só em números, mas de maneira realmente eficaz e digna?

Cabe às companhias fazer com que a lei sancionada traga bons resultados. A busca pela inclusão vai além da simples geração de empregos, apesar de ser, por si só, altamente relevante para a vida das pessoas e o desenvolvimento socioeconômico de nosso País. A iniciativa do governo tem como objetivo a mudança do olhar da sociedade perante essas pessoas. Se as empresas iniciarem o processo, todos serão beneficiados, uma vez que os portadores de necessidades especiais podem, sim, preencher vagas operacionais, táticas e estratégicas em uma organização.

Apesar de muitas companhias ainda os deixarem em cargos inicias, sem vislumbrar uma evolução profissional, há as que já identificam essa oportunidade. Sem dúvida, isso exige muito dos profissionais de RH, mas é de suma importância para a evolução de nossa sociedade. A dificuldade está justamente em adequar o olhar de quem contrata, uma vez que a busca pelo profissional não deve ter o simples foco de cumprir cotas, mas sim de preencher uma necessidade da empresa e desenvolver o profissional escolhido, como é feito com qualquer outro colaborador.

A diferença é a ampla exigência por disciplina, paciência e dedicação. Não basta contratar o portador de necessidades especiais, é preciso oferecer a estrutura necessária, autonomia para seu trabalho e acompanhamento.

Em suma, o desenvolvimento dos colaboradores com deficiência está diretamente relacionado à atenção oferecida pela empresa a ele. É necessário compreender mais do que suas limitações, provendo uma linha de crescimento aderente às suas possibilidades e que não impeça sua evolução.

Seu aproveitamento com foco no desempenho da companhia é factível, requer muito trabalho e gera bons resultados. Profissionais como eles - acostumados à não inclusão - reconhecem as oportunidades que lhes são oferecidas. Mesmo assim, não esqueço o fato de que a busca por essas pessoas capacitadas para a vida corporativa é de fato árdua, o que dificulta o trabalho do RH. Existe um gap histórico de formação - assim como houve com as mulheres - que exige certo tempo para o preparo desse perfil profissional, pois as portas do mercado de trabalho começaram a se abrir há pouco.

O caminho ainda é longo. As empresas precisam amadurecer significativamente no que diz respeito à carreira dos portadores de deficiências. A troca de conhecimento é de suma importância, assim como a conscientização de lideranças. Entender as diferenças e limitações de cada ser humano e potencializá-lo é o grande segredo para lidar com a diversidade. Em contrapartida, as companhias poderiam ser reconhecidas pelas ações realizadas e, ainda, receber apoio para que o cumprimento das cotas seja de fato possível.

Empresas, líderes e gestores de RH, sugiro que fiquem atentos, há oportunidades além das cotas. É possível fazer diferente, com respeito e relação ganha-ganha entre todos os envolvidos. Abrir as portas para as diferenças gera valor para todos: seu negócio, o colaborador e a sociedade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.