Oportunidade na crise

O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2015 | 02h02

O ano de 2015 é marcado, além dos efeitos da crise política e de seus desdobramentos, pelo expressivo ajuste de preços - tanto dos administrados, como combustíveis, energia, transportes públicos e outros, quanto da taxa de câmbio. Todos eles estavam defasados, muito em função das decisões de política econômica nos dois anos anteriores, que evitaram impactar negativamente a imagem do governo diante da proximidade das eleições.

Se, por um lado, o ajuste dos preços em curso traz impactos significativos sobre a inflação, por outro, representa a oportunidade de restabelecer os parâmetros que permitam, desde que as demais condições favoreçam, a retomada de projetos que se mostravam inviáveis por causa da estrutura de preços relativos então vigente.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que no período de 2010-2014 teve variação média anual de 6,1%, deve superar os 9,5% em 2015, gerando perdas no curto prazo. A inflação de 2016 cairá substancialmente, aproximando-se do nível observado no período anterior mencionado. Vários dos fatores de oferta que a pressionam este ano não se repetirão na mesma proporção no ano que vem, além dos efeitos da queda da atividade.

Quanto à taxa de câmbio, a desvalorização do real amplia a competitividade da produção brasileira diante dos produtos importados no mercado doméstico e nas exportações, o que nem sempre é imediato, por vários fatores. Primeiro, porque as decisões no âmbito da produção têm um timing bem diferente do do setor financeiro; segundo, porque muitos elos das cadeias produtivas foram desativados no longo período de valorização da moeda; e, terceiro, porque o mercado exportador está retraído com a desaceleração da China e de outros países, e a competição é ferrenha. Outras moedas também têm se desvalorizado e a recuperação ou ampliação de market share não é tarefa fácil.

Internamente, há questões importantes: 1) é preciso ficar claro para os decisores que a desvalorização é para valer, ou seja, que o Banco Central não cairá na tentação de voltar a utilizar a política cambial como instrumento de controle de inflação no curto prazo e revalorizar o real; 2) ao mesmo tempo, é importante buscar diminuir a volatilidade do real, ou seja, reduzir as oscilações exageradas da moeda, porque isso dificulta o cálculo econômico e as decisões de investimento produtivo; e 3) combinar o estímulo cambial com outros fatores relevantes, como acesso ao financiamento a taxas compatíveis com a rentabilidade esperada na atividade produtiva, desoneração dos investimentos e exportação, etc.

A estrutura da economia brasileira não pode abrir mão da reindustrialização como fator de desenvolvimento. Não se trata de incentivá-la em detrimento dos demais macrossetores - o complexo agromineral e os serviços -, mas de intensificar a integração entre os três, aproveitando e agregando sinergias.

Como fator de estímulo e experiência vale lembrar que, historicamente, os grandes saltos na nossa economia ocorreram como resposta às crises. Na década de 1930, demos início à industrialização, em razão da debacle do café. Na década de 1980, o desafio foi responder à elevação dos preços do petróleo e dos juros no mercado internacional; e, nos anos 90, à abertura comercial e financeira em tempos de globalização, à necessidade de modernizar o Estado e à estabilização dos preços.

Experiência, pois, não nos falta. O problema é que, quando aprendemos as respostas, mudam as questões e estamos diante de novos desafios, complexos, mas não insolúveis. Se não há alternativas indolores e fáceis, por outro lado, não há por que ficar refém de paradigmas que já se mostraram insuficientes para fazer frente ao novo. Vamos ter de ter coragem e determinação para mudar convicções, mesmo que isso desagrade ao senso comum.

* Antonio Corrêa Lacerda é professor-doutor da PUC-SP e consultor. É autor de 'Crise e oportunidade: o Brasil e o cenário internacional' (Lazuli, 2006), entre outros livros.

Site: www.aclacerda.com

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