Oportunidade (perdida) de ficar calado

Em evento destinado à inauguração da segunda fase do programa Minha Casa, Minha Vida, na Bahia, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que foi "gostoso" terminar seu mandato e ver EUA, Europa e Japão em crise.

José Pastore, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2011 | 00h00

Nunca vi uma declaração tão infeliz. Além de criar um evidente desconforto na área diplomática, Lula revelou uma desumana falta de sensibilidade para com os trabalhadores do mundo desenvolvido. Sim, porque, se olhasse um pouco mais para os fatos, veria que os grandes prejudicados da crise atual são exatamente os empregados que perderam o emprego e as suas casas e que estão submetidos a um verdadeiro massacre nos seus direitos e benefícios. Justo eles que nada têm que ver com a crise que atinge seus governos.

Mas assim são os fatos. Na União Europeia, para tentar corrigir o descontrole das finanças públicas, os governos de Grécia, Portugal, Espanha, França, Irlanda e Inglaterra não param de fazer cortes de empregos, de salários e de aposentadorias. Os sindicatos protestam, atraem a atenção da população, mas nada adianta. O massacre continua.

No Japão, a desocupação sobe, o tradicional sistema de garantia de emprego se tornou um luxo para poucos e as aposentadorias e pensões foram ainda mais encolhidas.

Nos EUA, a situação beira a catástrofe. O desemprego caiu em dezembro de 2010 de 9,8% para 9,4% porque muitos trabalhadores desistiram de procurar emprego, e não porque foram criados novos postos de trabalho.

Os governadores americanos que tomaram posse no dia 1.º de janeiro, apavorados com os déficits de seus Estados, tomam providências devastadoras para os trabalhadores dos setores público e privado. No Estado de Nova York, Andrew Cuomo congelou os salários dos funcionários sine die. No Estado do Alasca, Sean Panell suspendeu o pagamento das aposentarias e pensões. Na Califórnia, Jerry Brown está revendo todos os benefícios do funcionalismo. Em vários Estados, os mandatários passaram a patrocinar abertamente projetos de lei que reduzem o poder de negociação dos sindicatos, em especial os que lidam com os funcionários públicos. Em Wisconsin, Scott Walker disse claramente não ser possível manter os funcionários públicos com regalias e os demais na penúria. Os cortes estão sendo profundos. Além dessas perdas, muitos perderam suas residências e tiraram seus filhos das universidades.

Ou seja, a crise que deixa Lula feliz é a que arrasa os trabalhadores e suas famílias. É isso que ele acha "gostoso".

Foi revoltante ver essa frase sair da boca de um presidente que passou a maior parte da sua vida como dirigente sindical e que deveria estar confortando os desempregados, e não zombando da sua situação.

A desolação dos trabalhadores do mundo desenvolvido não tem nada de engraçado e, tampouco, de "gostoso". É um desastre inaceitável. Não tem cabimento comemorar essa calamidade.

Com todo o respeito, Lula perdeu uma extraordinária oportunidade de ficar calado no final do seu mandato. Bom seria se ele tivesse tirado ensinamentos úteis daquela crise e promovido as reformas necessárias para conter o déficit público - o da Previdência Social (pública e privada) será de quase R$ 100 bilhões - e melhorar a capacidade do Estado para investir em infraestrutura, educação e saúde e, com isso, tornar a economia brasileira mais competitiva e o povo mais bem atendido.

Tendo oito anos para tomar essas providências, ele preferiu esperar os últimos dias para dizer que a devastação que acomete os trabalhadores do mundo lhe dá prazer. Sinceramente, não gostei. Os trabalhadores merecem respeito, e não deboche - estejam onde estiverem.

O que nos cabe é trabalhar seriamente para que essa catástrofe não venha a atingir os brasileiros. É ilusório pensar que o Brasil é um país que estará blindado contra déficits até o fim da história. Não nos cabe sair à rua para celebrar a desgraça alheia, mas, sim, lutar para evitar a nossa.

PROFESSOR DE RELAÇÕES DO TRABALHO DA FEA-USP

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