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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Oportunidades perdidas

Estamos num desses momentos delicados na definição da política econômica quando o turbilhão nos mercados de crédito exige uma mão firme e sistemática - uma mão que avalie a necessidade de restaurar a confiança sem socorrer financeiramente investidores, executivos de banco e administradores de fundos que fizeram um caminhão de más apostas.Ainda é cedo para julgar, mas a esta altura, o desempenho do governo Bush e o do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tem sido menos que sensacional. Eles tardaram em reconhecer a extensão da bolha de crédito e seu possível impacto sobre a economia. E, desde então, ainda estão atrasados em relação aos acontecimentos, empacados numa ideologia de mercado livre e em seus próprios papéis , permitindo que a bolha se desenvolvesse. O Fed acertou na terça-feira ao manter as taxas de juros em vez de baixá-las. No atual clima do mercado, uma pequena modificação nas taxas dos fundos federais não teria um efeito real sobre o preço do dinheiro. E teria indicado para Wall Street que o Fed de Ben Bernanke, como o Fed de Alan Greenspan, está disposto a abrir a torneira do dinheiro para alicerçar o mercado e impedir que a turbulência do mercado se espalha sobre a economia real.Ao mesmo tempo, com a declaração de que continua primordialmente preocupado com a inflação, o Fed perdeu uma oportunidade de ouro para indicar que leva a sério os riscos de uma escassez de capital de investimento e uma desaceleração da economia induzida pelo mercado.Isto tem sido um ponto cego para o Fed, que sempre parece surpreso quando os mercados se excedem e, invariavelmente, minimiza a importância do elo entre mercados financeiros e a economia real até que seja tarde demais para fazer muito coisa a respeito. Agora fez isso de novo. Para uma organização que alega estar escaneando a estrada em busca de saliências e crateras à frente, o Fed passa tempo demais olhando pelo espelho retrovisor. Igualmente surpreendente tem sido a reação no estilo Katrina à desintegração do mercado hipotecário, que se disseminou bem além dos empréstimos de alto risco. Como costuma acontecer, a parte do mercado de hipotecas que continua a funcionar mais ou menos normalmente é aquela onde hipotecas de proporções modestas são garantidas e juntadas por Fannie Mae e Freddie Mac. Foi para isso precisamente que Fannie e Freddie foram criados, para oferecer liquidez aos mercados hipotecários quando outros têm medo de emprestar. Portanto, seria de esperar que a administração Bush trabalhasse com eles para expandir a compra de hipotecas e convidá-los para participar temporariamente de outras áreas tais como hipotecas jumbo, onde os mercados privados estão fracassando.Infelizmente, isso vai exigir que o Fed e o governo, depois de passarem anos demonizando Fannie e Freddie e tentando reduzir seu tamanho e influência, humilhem-se e se retratem politicamente. Eles terão de admitir que estavam errados quando disseram que se podia confiar nos bancos privados para estabelecer padrões de empréstimos e proporcionar uma fonte confiável de financiamento de hipotecas, nos bons e nos maus tempos. E teriam de reconhecer que dar a Fannie e Freddie acesso ao respaldo do governo poderia, em alguns casos, reduzir a chance de uma desintegração do mercado financeiro em vez de aumentá-la, como tão freqüentemente previram. Há semanas que Fannie e Freddie vêm conversando com seus regulamentadores, James Lockhart, diretor do Office of Federal Housing Enterprise Oversight (Departamento de Supervisão Federal de Empreendimentos Imobiliários) sobre como conseguir permissão para intensificar sua atividade. Até agora, sem resposta. Mas, qual é a pressa? A grande onda de execução de hipotecas provavelmente só ocorrerá no próximo ano. E, de qualquer forma, acha o presidente, "Locky está fazendo um ótimo trabalho".Neste ínterim, nos fundos hedge, nas companhias de seguros e nos grandes bancos de Wall Street, os mestres do universo estão suando frio pensando no que vão dizer aos investidores e responsáveis pela regulamentação sobre todos esses ativos nos seus balancetes que, de repente, ninguém quer comprar. Isso inclui trocas de crédito e outros derivativos sofisticados, juntamente com empréstimos a firmas de private equity para impor um "valor de mercado justo" sobre esses ativos - um processo que permite um amplo grau de livre arbítrio. Olhando por cima dos ombros deles estarão os responsáveis pela regulamentação do Fed, o Tesouro e a Comissão de Valores Mobiliários. Esse processo de "corrigir o mercado" põe os reguladores nas garras de um dilema político. Se obrigarem os bancos, fundos hedge e seguradoras a atribuir valores conservadores aos ativos com base nas recentes vendas desalentadoras em áreas com poucos compradores, isso poderá fazer os mercados entrarem em parafuso. Os financiadores serão obrigados a exigir o pagamento dos empréstimos à vista, as agências de classificação rebaixarão centenas de bilhões de dólares em empréstimos e títulos e os fundos hedge terão de vender seus ativos bons para pagar os empréstimos que usaram para comprar os ativos ruins. Por outro lado, se os responsáveis pela regulamentação permitirem que eles usem modelos de computador para atribuir valores mais otimistas a esses ativos, eles poderão ser acusados de ajudar os bancos, as seguradoras e os fundos hedge para enganar os investidores sobre os riscos de empréstimos e investimentos. Você poderia apresentar uma variedade de formas para pesar os prós e os contras entre reduzir o risco para o sistema financeiro e incentivar a transparência. Minha solução seria permitir alguma flexibilidade na avaliação, o que ajudaria a acalmar os mercados, ao mesmo tempo em que requereria de todas essas instituições financeiras que reservam mais dinheiro que servissem de um amortecedor para os financiadores e investidores em caso de as coisas azedarem.Mas o ponto mais importante aqui é que, com a louvável exceção do Federal Reserve Bank de Nova York, o governo continua impassível diante da crise do mercado de crédito que poderia e deveria ter sido prevista meses atrás. Ninguém quer nem espera que o governo interfira e socorra financeiramente dirigentes de bancos e administradores de fundos que ficaram ricos operando rápido demais e perdendo o dinheiro de outras pessoas.Mas no momento em que, como resultado de falhas no mercado e na regulamentação, milhões de americanos estão diante da perspectiva de perderem suas casas, empregos ou economias de aposentadoria, você esperaria que o governo mostrasse um pouco mais de premência e franqueza em relação ao problema e mais criatividade e liderança em atacá-lo. Este não seria o momento para partir para o rancho ou para a praia e deixar tudo para o "senhor Mercado" resolver.

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