Oposição argentina apoia nova negociação

Maioria dos partidos dará respaldo a projeto da presidente para renegociar com credores

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2013 | 02h08

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, conta com grande parte dos partidos da oposição para aprovar no Parlamento o projeto de lei que suspende, pela segunda vez em três anos, a denominada "Lei Ferrolho" - norma que impede uma nova reestruturação da dívida pública com os credores privados.

Apesar das promessas de que não negociaria com os "holdouts" (credores que não entraram nas duas operações anteriores de troca dos títulos, em 2005 e 2010), a presidente Cristina anunciou na segunda-feira à noite em rede nacional de TV um novo swap da dívida, para incluir os 7% dos credores privados que ainda restam fora das reestruturações dos bônus. Esses títulos seriam pagos na Argentina, para evitar embargos no exterior.

Atualmente pairam sobre a Argentina riscos de embargos sobre os pagamentos que o governo Kirchner realiza nos Estados Unidos a credores que aderiram às reestruturações anteriores. Os embargos estão sendo solicitados por um setor dos "holdouts", os denominados "fundos abutre", que pleiteiam nos tribunais em Nova York o pagamento de US$ 1,4 bilhão.

Os líderes de alguns dos partidos da oposição, especialmente os de centro, como a União Cívica Radical (UCR), e centro-direita, como o Proposta Republicana (PRO), anunciaram que respaldarão a medida do governo para "cumprir os compromissos" financeiros do país, embora critiquem a "incompetência" da presidente Cristina com os credores.

"O governo demonstrou outra vez que vai na rabeira dos acontecimentos e somente reage cada vez que existe um parecer negativo nos tribunais estrangeiros", afirmou o ex-presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay e atual deputado pela Coalizão Cívica, de oposição.

Prat-Gay lembra que "Nestor Kirchner foi o autor da ideia" de que os bônus argentinos das reestruturações de 2005 e 2010 fossem pagos nos Estados Unidos, "algo que agora sua mulher, a presidente Cristina, quer mudar". "Esse é um reconhecimento de que o governo está preso nos próprios erros".

Reputação. No entanto, o ex-vice-ministro da Economia Jorge Todesca considera que "a reputação da Argentina no exterior é péssima" e que seria "complicado" para os credores - que contam com a virtual proteção da lei americana (a não ser em caso de hipotético embargo) - aceitarem o pagamento de seus títulos em Buenos Aires.

Jorge Piedrahita, economista da Torino Capital, de Nova York, sustenta que "ninguém em sã consciência abandonaria a proteção da lei americana pela lei argentina". Os analistas destacam um problema adicional, após receber o pagamento em Buenos Aires: o atual impedimento para o envio de remessas para fora do país. A expectativa é que o governo Kirchner abra uma exceção para os credores.

Coincidentemente, ontem (terça-feira) caíram os títulos da dívida que estão sob legislação argentina, como os Boden 2017 e os Cupom, enquanto os títulos Global e Par, sob legislação americana, registraram altas na Bolsa de Nova York.

Os economistas indicam que a Argentina, embora tenha pago religiosamente suas dívidas com os credores privados desde as duas reestruturações dos títulos públicos, correria o risco de ser levada a um "calote técnico", na hipótese de não poder mais pagar os bônus no exterior por causa dos embargos na Justiça.

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