Opostos se atraem?

Foram unânimes entre analistas e investidores os aplausos para a proposta de compra da Cetip, que presta serviços como o registro, negociação e liquidação de títulos de renda fixa e outros ativos financeiros, pela BM&FBovespa, a maior bolsa de valores da América Latina que negocia ações de empresas e derivativos, como opções e índices. A operação foi submetida no fim de junho para análise e aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2016 | 05h00

Enquanto a Cetip atua no chamado mercado de balcão – com produtos e serviços customizados –, a BM&FBovespa opera com contratos padronizados. A primeira opera desde 1986, a partir da iniciativa de instituições financeiras. A segunda tem origem centenária, atuando, em boa parte da sua história, sob as rédeas das corretoras de valores mobiliários, as quais, donas de títulos patrimoniais, nem sempre decidiam com agilidade necessária novos rumos para os negócios. Ao menos, no passado.

A avaliação inicial da operação pelos investidores focou no potencial de economia que a combinação da BM&FBovespa e da Cetip iria gerar. Houve quem estimasse ganhos de R$ 5 bilhões com a sinergia de custos (com corte de empregados, por exemplo) e de investimentos (particularmente em tecnologia), além do benefício tributário com a amortização do ágio. Ainda está fresca a memória da fusão, em 2008, entre BM&F e Bovespa, resultando, por exemplo, numa redução de quase um terço dos funcionários e numa integração bem sucedida das duas plataformas. Muitos destacaram na oferta da BM&FBovespa pela Cetip a tacada estratégica de criar uma “superbolsa” no Brasil, afastando a entrada de potenciais rivais e consolidando a dominação das respectivas áreas de atuação.

Todavia, quantas fusões no passado fizeram sentido quando se contabilizavam os potenciais ganhos com sinergia ao se unir negócios complementares, mas que geraram mais dor de cabeça do que o previsto? Várias. Quase sempre por um motivo frequentemente relegado: a diferença na cultura empresarial e estratégica das duas empresas envolvidas. No caso de Cetip e BM&FBovespa, um especialista do setor enfatiza que os dois mercados são diferentes do ponto de vista da dinâmica, dos processos e da forma de fazer negócios: o mercado de balcão exige uma flexibilidade que se contrapõe à padronização exigida para os contratos de uma bolsa de valores. “Na Bolsa, ela dita a regra”, diz o especialista. “No mercado de balcão, quem dita a regra é o mercado, isto é, o cliente.” Se, nos números frios, a fusão faz sentido, culturalmente uma “superbolsa” será um casamento feliz?

Levar em conta a diferença cultural assume uma relevância ainda maior quando se trata de uma fusão de empresas no setor de serviços, que empregam elevado capital humano. Ao se relegar essa diferença, a capacidade de criar soluções rápidas e adequadas para atender às demandas de clientes fica afetada. O potencial de conflito é ainda maior quando as empresas envolvidas são líderes de mercado e bem sucedidas nas suas áreas de atuação, pois há o risco de cada uma querer continuar tocando o novo negócio como fazia separadamente. Os executivos da nova empresa deveriam aproveitar e maximizar o que cada uma fazia melhor, sem esquecer as necessidades específicas de atuação de ambas.

Bolsa e balcão são negócios complementares e não substitutos. Preservar a cultura de cada organização requer uma estrutura de negócios ou de preços que não prejudique a complementaridade dos dois segmentos. Uma cultura se sobrepor a outra de forma autoritária, porque uma empresa está comprando a outra, pode desperdiçar os ganhos potenciais com a economia de custos.

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