Orçamento e austeridade

François Hollande, tão apagado em geral e frequentemente ridicularizado pela falta de ousadia enfim encontrou a ocasião para um "gesto histórico". Todos os comentaristas, de esquerda ou direita, proclamam que o orçamento de 2013 que ele acabou de apresentar é "histórico". De fato, jamais a França contemplou um orçamento tão "maciço", tão "duro"e feroz. Na falta de entrar para a história em razão de uma grande façanha ou um triunfo, Hollande procura se inserir nela infligindo a seus cidadãos um rigor sem precedentes. Para a esquerda este orçamento é "corajoso". Para a direita é "nulo".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h10

Examinemos mais de perto: Hollande, que necessita de 30 bilhões para manter o déficit em 3% do PIB, decidiu aumentar os impostos em vez de reduzir as despesas do Estado. O nível de vida da França sofrerá uma diminuição de 10 bilhões, ao passo que os impostos devem trazer para os cofres 20 bilhões mais do que no ano passado.

É verdade que o aumento dos impostos além de um determinado patamar é um veneno mortal? Na história temos dois exemplos que mostram o contrário: no século 18, a Inglaterra elevou fortemente o imposto sobre a cerveja. Como resultado, os operários ingleses, em vez de reduzir o consumo de cerveja, trabalharam mais para poder beber sempre a mesma quantidade da bebida. Outro exemplo: na Rússia, os czares tiveram a ideia de taxar o uso da barba. Em tese, todos russos deveriam cortar a barba para escapar do imposto. Pois foi o contrário que ocorreu: as barbas se multiplicaram pois os russos de classe média queriam aparentar que eram ricos..

É evidente que os franceses não são nem ingleses do século 18 e tampouco russos do czar. Os ricos franceses do século 21 odeiam quem mexe no seu dinheiro. Suspeita-se que o homem mais abastado do país, Bernard Arnault (dono, entre outras, da marca Vuitton) quis escapar para a Bélgica. E grupos poderosos estudam a expatriação de suas sedes para escapar do pesadelo fiscal.

E o que pensam os economistas? A maioria teme que o orçamento acabe sendo um fracasso. O seu temor é de que "o crescimento" insano dos impostos provoque uma desaceleração da produção. Ora, neste caso haverá uma queda automática das receitas fiscais. Um circulo vicioso garantido.

Além disso, este orçamento, como os de outros países da Europa meridional, o da Espanha por exemplo apresentado ontem e bem mais cruel do que o de Hollande, sofrem todos do mesmo mal e os mesmos desconfortos: o ambiente internacional.

Num mundo globalizado, cada economia depende das outras economias. Se a demanda europeia é fraca ou negativa, como a produção francesa poderá se recompor com suas exportações diminuindo? É o que se verifica hoje: mesmo a Alemanha desacelera pois seus produtos são menos encomendados pelo resto da Europa. Ontem havia uma "globalização" da prosperidade. Hoje é a crise que está "globalizada". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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