Ordem no governo é negar quadro de recessão técnica

Nos bastidores, aliados de Dilma querem que ela assuma compromissos com metas de inflação, PIB e superávit primário

TÂNIA MONTEIRO, VERA ROSA, JOÃO VILLAVERDE, JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2014 | 02h04

Com o pífio resultado do PIB no segundo trimestre, a ordem no comando da campanha da presidente Dilma Rousseff é negar a existência de uma "recessão técnica", mostrar que o cenário atual está melhor e desconstruir os "prognósticos" pessimistas de Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB).

Nos bastidores, aliados de Dilma dizem que a economia é o calcanhar de Aquiles dessa campanha e querem que a presidente seja mais assertiva e assuma compromissos sobre metas de inflação, crescimento e superávit primário em eventual segundo mandato. Para isso, querem que Dilma use mais suas entrevistas, e principalmente o seu programa eleitoral na TV e no rádio para explicar os motivos do "crescimento negativo" e mostrar que isso é passageiro e reflexo da crise internacional, tentando convencer a população de que tem o domínio da economia, assegurando que tem o caminho para voltar a crescer.

Diante da subida de Marina nas pesquisas de intenção de voto, o receio é que a ex-ministra do Meio Ambiente, hoje em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, consiga a simpatia do mercado financeiro. A coordenadora do programa de governo de Marina é Maria Alice Setúbal, a Neca, herdeira do Itaú Unibanco.

A estratégia do Planalto e do comitê da reeleição é rebater todas as críticas da oposição, para quem o Brasil está na UTI econômica. No contra-ataque, ministros citam que Armínio Fraga entregou a inflação acima da meta quando foi presidente do Banco Central, no governo Fernando Henrique Cardoso. A reação é porque Aécio disse que, se vencer as eleições, Armínio assumirá a Fazenda.

Repercussão. Ontem o ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, afirmou que o quadro deve ser analisado sob a ótica da realidade econômica mundial. "Nós fomos um dos países que mais resistiu ao impacto da crise internacional. O Brasil, mesmo enfrentando dificuldades, manteve o emprego e a renda. Não há recessão e o quadro econômico, hoje, está bem melhor", insistiu Berzoini, um dos articuladores políticos que fazem a "ponte" do Palácio do Planalto com a campanha de Dilma.

O discurso para a defesa da política econômica já estava armado há quase um mês. Quando ficou claro para a presidente Dilma que os dados indicavam uma "recessão técnica" no primeiro semestre, uma estratégia foi fechada entre o Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda. A ideia era colocar Mantega para realizar uma rodada de entrevistas exclusivas com jornais e agências de notícias, como forma de "preparar o terreno".

Com as explicações repetidas há quase 30 dias, o governo espera ter criado uma espécie de "colchão" na opinião pública. "Como o mercado de trabalho continua criando vagas formais e a massa salarial mantém a elevação, tivemos uma recessão atípica. O povo esteve em festa com a Copa e com emprego garantido", afirmou ao Estado um auxiliar presidencial ontem.

Igual a FHC. Agora, o governo está em "modo de espera". O Planalto sabe que os dados deste terceiro trimestre indicam uma atividade melhor do que o primeiro semestre, e resta apenas um mês para as eleições. O governo sabe que será atacado pelo desempenho do PIB em ano eleitoral, mas uma fonte do Palácio do Planalto afirmou ao Estado que o quadro não é inédito. "Fernando Henrique se reelegeu mesmo atravessando um ano péssimo na economia. Hoje temos o menor índice de desemprego, então não será o PIB que vai mudar o voto de ninguém." Em todos os oito anos de gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o pior resultado do PIB foi alcançado em 1998, quando FHC buscou sua reeleição. Naquele ano, o PIB registrou alta de apenas 0,04%.

Dois meses depois de se reeleger, FHC sofreu uma crise cambial que alterou completamente a política econômica do primeiro mandato. Desde 1999, então, o País passou a seguir o "tripé macroeconômico", baseado em câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal.

Ambos os candidatos de oposição ao governo Dilma, Aécio Neves e Marina Silva, têm apontado que o "tripé" inaugurado por FHC e mantido por Luiz Inácio Lula da Silva, segundo eles, foi abandonado por Dilma Rousseff. Esta, inclusive, seria uma das razões para o pífio desempenho econômico em 2014.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.