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 A Raízs, de Abrahão, triplicou de tamanho Tiago Queiroz/Estadão

Orgânicos driblam pequena fatia no setor de alimentos com venda direta

Apesar do maior interesse por produtos sem agrotóxicos, orgânicos não chegam a 1% das vendas de alimentos ‘in natura’ em supermercados; para ter preços acessíveis e evitar perder parte do lucro, empresários criam canais próprios de distribuição

Fernanda Guimarães e Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 05h00

O mercado de orgânicos no Brasil ganha força com diversos projetos inovadores, mas a participação desses produtos no consumo de alimentos como um todo ainda é baixa. Mesmo nas categorias “in natura”, como verduras, ovos e carnes, a fatia dos produtos sustentáveis ainda é pequena, na maior parte das vezes ficando abaixo de 1% das vendas totais. No entanto, empreendedores da agricultura orgânica encontraram uma forma de crescer sem depender de terceiros: estão pulando as grandes redes de varejo, eliminando atravessadores e se relacionando diretamente com o consumidor.

É um movimento que ainda carece de dados, conforme admite Virginia Lira, coordenadora da produção de orgânicos do Ministério da Agricultura. “Embora não tenhamos números, essa comercialização direta para o consumidor tem se intensificado – e o potencial de crescimento é grande”, explica. Hoje, a principal estatística do ministério refere-se ao cadastro de produtores orgânicos no País. São quase 25 mil propriedades trabalhando dentro de um modo sustentável de agricultura.

Nos supermercados, embora os orgânicos já movimentem cifras bilionárias, a fatia nas vendas como um todo ainda é bastante discreta. As melhores participações estão em carnes (1% do total), frutas (1,2%) e outros vegetais (1,3%), de acordo com levantamento da empresa de pesquisa Euromonitor (veja detalhes no quadro abaixo). A produção orgânica desses três setores, somada, movimentou quase R$ 4,5 bilhões no ano passado, segundo a Euromonitor, que projeta uma forte aceleração do consumo desses produtos nos próximos cinco anos.

A falta de dados e a participação ainda tímida dos orgânicos estão relacionadas à recente definição dos padrões de produção. “A lei dos orgânicos foi criada em 2003, mas entrou em vigor somente em 2011”, lembra Cobi Cruz, diretor da Organis, associação que reúne 80 empresas que trabalham ao menos parcialmente com produtos orgânicos. Pelos cálculos da Organis, a comercialização nas feiras cresceu 30% em 2020, ante um avanço de 6% das vendas nos supermercados. “O setor está criando caminhos alternativos para a distribuição”, diz Cruz.

Fazem parte da Organis, baseada em Curitiba (PR), empresas com uma longa trajetória no setor de alimentos que decidiram apostar na força dos orgânicos, como a Vapza (mais conhecidas por produtos embalados a vácuo) e a Jasmine (de produtos saudáveis). A “onda” dos orgânicos não passou despercebida pelas grandes marcas de alimentos: tanto a Sadia (da BRF) quanto a Seara (da JBS) lançaram novos produtos com o selo ao longo do último ano.

Sem intermediários

Entre as companhias voltadas 100% aos orgânicos, segundo especialistas, são comuns os projetos inovadores de distribuição. A paulista Raízs, por exemplo, já se classifica como “foodtech”.

Com cinco anos recém-completados no mercado, a companhia vem triplicando – ou até quadruplicando – de tamanho todos os anos. Hoje o negócio tem 30 mil clientes. Uma parte deles recebe as cestas de orgânicos por assinatura e outra compra diretamente no site. Por dia, o volume de produtos entregues aos consumidores chega a 10 a 12 toneladas, e eles são fornecidos por 820 produtores.

“No ano passado a gente triplicou de tamanho. Tivemos um crescimento acelerado no início da pandemia, e isso se propagou ao longo do ano. Foi um momento em que as pessoas repensaram seus hábitos em relação ao alimento, houve uma maior conscientização, e isso não retrocederá”, diz o fundador da Raízs, Tomás Abrahão. “A pandemia acelerou um processo que já estava ocorrendo.”

O empreendedor cita que a relação com os produtores não é apenas comercial, mas inclui banco de sementes, oferta de aconselhamento de agrônomos e organização de quanto cada produto vai plantar, além de crédito. “Além de pagarmos mais ao consumidor, reduzimos o desperdício ao vender diretamente para o cliente.”

Com mais de 2 mil itens disponíveis em seu site, incluindo produtos como ovos, queijos e manteiga, a Raízs diz que hoje domina cerca de 25% do mercado de orgânicos online entregue em São Paulo.

Abrahão diz que a empresa é saudável financeiramente, ao contrário de muitas startups, que queimam caixa para financiar o crescimento. Apesar de dizer que não precisa de recursos, reconhece que a chegada de um novo sócio pode ajudar a acelerar o negócio. “Temos muitos fundos interessados, mas a questão é achar um sócio que esteja alinhado com a gente.”

Pioneirismo

Atuando na produção de orgânicos, a Boa Terra já está na segunda geração de um negócio criado há 40 anos. Com a alavanca das vendas online, o negócio também teve um crescimento robusto. Hoje a produção do sítio da marca é comandada pelas filhas dos fundadores – um casal de holandeses. A empresa também tem apostado na venda direta. Na pandemia o crescimento do comércio online do negócio foi de 300%.

A empresa atende a 600 famílias semanalmente. O serviço de assinatura de cestas orgânicas, lançado pouco antes do início da pandemia de covid-19, no ano passado, já representa cerca de 20% das vendas da Boa Terra.

Segundo o diretor geral do sítio, Julio Cesar Benedito, muitas vezes esse serviço sofre um impacto porque os cientes acabam recebendo produtos que não estão acostumados a consumir e muitos acabam preferindo ter a opção se selecionar os itens de sua preferência e montar a cesta. A vantagem do serviço de assinatura é a previsibilidade do faturamento – algo muito importante para a organização da agricultura. Hoje o sítio produz 60 itens e complementa seu portfólio com mais 230 itens de marcenaria.

Além da produção e da distribuição de alimentos, o sítio se dedica ao turismo, recebendo escolas e famílias. Com a pandemia e a necessidade de isolamento social, a empresa manteve a visitação com a possibilidade de fazer piqueniques no local, com o devido distanciamento, conta Violeta Stoltenborg, uma das filhas dos fundadores da Boa Terra.

Selos e certificados atestam a origem de produto orgânico

Você é do tipo de consumidor que, ao chegar em uma feirinha de orgânicos, fica desconfiado se aquele produto é mesmo certificado? O Ministério da Agricultura, que é responsável pelo cadastro desses agricultores no País, diz que o consumidor tem diversas formas de conferir a origem do alimento que vai comer.

Nos supermercados, essa conferência é mais fácil, explica Virginia Lira, coordenadora da produção de orgânicos do Ministério da Agricultura. Segundo ela, existem hoje 13 certificadoras de orgânicos no País – caso a pessoa queira conferir se o selo é real, basta entrar no site do ministério, que tem uma seção dedicada aos orgânicos. Já, para as feiras, que vendem a granel, o governo emite um certificado que o vendedor deve manter sempre consigo – é direito do cliente solicitar o documento.

Virginia admite que o cadastro dos produtores orgânicos ainda é pouco intuitivo – para achar as informações, é necessário abrir e buscar dentro de um arquivo de Excel. Há um projeto de inserir esses dados em uma ferramenta de busca. 

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Produtores de orgânicos viraram a chave na pandemia

Fornecedor antes especializado nas maiores grifes da gastronomia, como D.O.M. e Fasano, passou a vender para o mercado residencial

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 05h00

No mercado há 25 anos, Deborah Orr, da DRO Ervas e Flores, sempre teve foco no fornecimento de produtos orgânicos para hotéis e restaurantes, dentre eles os mais badalados, como D.O.M., Fasano e A Casa do Porco. Além de entregar verduras, legumes e frutas orgânicas, ela se especializou nas “Pancs” – plantas comestíveis não convencionais, como as flores que enfeitavam e davam sabor aos pratos de grandes chefs.

Com a pandemia, no entanto, os pedidos de restaurantes despencaram, visto que o segmento foi um dos mais afetados pela crise sanitária, pois teve de passar boa parte de 2020 de portas fechadas. Esse foi o empurrão para que a produtora passasse a atender pessoas físicas pela primeira vez.

“Sempre trabalhamos com a alta gastronomia, até a chegada da pandemia. Quando os hotéis e restaurantes fecharam, tivemos que migrar para as pessoas físicas para sobreviver”, diz Deborah. Hoje são feitas 70 entregas por dia, e a DRO atende a 18 municípios, área que vem se expandindo desde o ano passado. A propriedade está localizada em Cerquilho, a 143 km da capital paulista. 

A logística, segundo ela, é a parte mais complicada dessa expansão. Para realizar entregas, a empresa tem 23 veículos refrigerados. O tipo de produto vendido às pessoas físicas é o mesmo que o enviado antes aos restaurantes. A salada, por exemplo, chega higienizada e inclui itens como legumes de cores diferentes das tradicionais, como beterraba amarela e rabanete melancia, por exemplo, além de flores comestíveis. As cestas custam de R$ 80 a R$ 160.

Alternativa

Outra empresa que cresceu fortemente durante a pandemia foi A Tal da Castanha – reinventando e expandindo um negócio de família. A marca de leite vegetal foi fundada pelos irmãos Felipe e Rodrigo Carvalho, herdeiros de uma das principais exportadoras de castanha de caju do mundo, a Amêndoas do Brasil. Para Rodrigo, a “onda saudável” veio para ficar: “A pandemia forçou as pessoas a ter um olhar mais cuidadoso. E o impacto com o meio ambiente tem pesado muito. O assunto ganhou relevância.”

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