Organize-se, delegue e, enfim, descanse

Perfil centralizador e medo de dizer não faz com que 30% dos executivos brasileiros permaneçam longos períodos sem tirar férias

LEANDRO COSTA, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h11

Tirar férias anualmente e se desligar totalmente do trabalho é vital para que o profissional renove suas energias e consiga se manter produtivo, indicam os estudiosos e especialistas em qualidade de vida.

Entretanto, nem sempre essa pausa é respeitada, segundo aponta um estudo feito pela Consultoria BTA , sobretudo nos cargos de liderança. De acordo com os dados, cerca de um terço dos executivos brasileiros não consegue tirar férias há mais de três anos. E, entre os que conseguem, quase metade não fica mais de 10 dias seguidos longe do trabalho ao longo de um ano. O estudo ouviu profissionais das 500 maiores empresa do Brasil.

Autora da pesquisa, professora do programa de administração da PUC-MG e diretora da BTA, Betania Tanure avalia que resolver a questão não é tarefa simples, porque os motivos que levam esses dirigentes a adiar seu descanso por longos períodos são diversos.

"Esse comportamento é reflexo, em parte, de uma cultura de liderança centralizadora, que tem dificuldade de delegar e fica com a agenda entupida e inviável", diz a especialista.

Ela acrescenta que, seja por medo de perder o posto ou por desconhecer os próprios limites, os sem-férias acabam aceitando todas as demandas, muitas delas de curto prazo. Dessa maneira, criam-se as condições para um desequilíbrio entre a vida profissional e pessoal que impede essas pessoas de se afastarem da empresa.

A coach e diretora-presidente do Instituto de Desenvolvimento Humano Lippi, Flávia Lippi, alerta que, imerso nesse ritmo por longos períodos, o grau de energia cai, e o profissional começa a se voltar para o universo interno, perde a visão mais ampla da situação. E, assim, aumentam as chances de ele tomar decisões erradas.

"Sob estresse, a amígdala cerebral aciona o medo. Quando isso ocorre, o cérebro se programa para tomar medidas imediatas, que nem sempre são as mais inteligentes", afirma Flávia. Ela ressalta que o período de férias tem por objetivo justamente levar o executivo a se afastar do cotidiano e se recuperar para enfrentar outro período de trabalho de forma saudável.

Medidas. Organizar a agenda é a primeira medida para inverter esse quadro, recomendam ambas as especialistas. "O ideal é ter pelo menos 70% do seu tempo planejado. Entretanto, o que se vê entre os executivos é que eles conseguem gerir apenas 20% do tempo", diz Flávia.

Segundo ela, existem cursos e programas de treinamento que podem auxiliar os profissionais a lidar melhor com seus compromissos, permitindo incluir as férias nos planos.

É o que faz o diretor de captação de dados da Serasa Experian, Amador Rodriguez. Ele diz não se lembrar de nenhuma ocasião em que tenha ficado um período prolongado sem férias durante sua carreira. "Eu me planejo para isso. Tento fechar os compromissos da minha agenda anualmente, para conseguir conciliar meu descanso com as férias escolares dos meus filhos."

Para Rodriguez, o período anual de descanso é imprescindível para se manter produtivo.

"É o momento em que se reflete a respeito de tudo o que envolve a própria vida, que se pensa com mais clareza, de longe, no que precisa ser reestruturado quando voltar para o trabalho."

Outra prática adotada por Rodriguez é confiar na equipe e delegar responsabilidades - e que é indicada por consultores de recursos humanos como primordial para obter equilíbrio.

"Saber delegar é uma excelência em liderança. O líder que delega se estressa menos, pois o que centraliza está sempre fazendo o trabalho do outro. É como o cozinheiro que não permite que o assistente corte uma cebola, porque ele o faz de forma diferente da dele", diz Flávia.

Rodriguez afirma que seu foco no desenvolvimento da equipe dá a tranquilidade necessária para poder se ausentar, tanto para cumprir compromissos externos quanto para as férias.

"É comum eu ficar até cinco dias fora. Por isso, tenho a preocupação, no dia a dia, de fazer com que os membros da minha equipe assumam responsabilidades maiores para que estejam prontos para responder por mim quando necessário."

Adotar tais atitudes, no entanto, não é fácil, admite Betania. Segundo ela, o executivo tem passar por uma jornada de autoconhecimento, lidar com o ego, aprender sobre suas limitações e calcular o risco que corre ao ficar fora de algumas decisões.

"A dinâmica do mercado é que exige que as pessoas estejam sempre no limite. Esse ciclo que vivemos, de aumento de exigência constante, vai continuar. Algumas empresas já estão revendo essa equação e tentando equilibrá-la. Entretanto, o responsável por essa mudança é o indivíduo. É ele quem deve ditar as regras de vida e da carreira dele."

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