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Orgulho e preconceito

Em quase todo o mundo, as mulheres ganharam independência e espaço, inclusive quando o assunto é finanças

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 04h00

Orgulho e Preconceito é o título do romance da novelista inglesa Jane Austen, publicado em 1813, que explora com ironia a dependência das mulheres em uma época onde o casamento das filhas era a única forma de garantir proteção e estabilidade financeira a uma família de cinco irmãs. Dois séculos se passaram e muita coisa mudou. Em quase todo o mundo, as mulheres ganharam independência e espaço, inclusive quando o assunto é finanças. Mas ainda há um caminho longo pela frente e enquanto ele não for percorrido, empresas desperdiçam recursos, países crescem menos do que poderiam e o mundo fica menos diverso do que deveria.

O relatório Mulheres nos Serviços Financeiros 2020 – WinFS (Women in Financial Services, na versão em inglês), publicado na semana passada pela Oliver Wyman, é a terceira edição de um trabalho sobre representatividade feminina na indústria financeira. O estudo deste ano mostra que houve avanços relevantes quando se considera a força de trabalho das empresas do setor financeiro. Observa-se uma postura diferente na indústria como um todo, com recorde de representação feminina nos cargos de liderança.

Ocupamos 20% das posições nos comitês executivos e 23% nos conselhos de administração de empresas financeiras, um avanço importante se tomarmos como base os 11% observados nas duas dimensões em 2003, quando o índice começou a ser calculado. Os avanços surgem também na forma como a diversidade de gênero passou a ser encarada. Garantir oportunidades para mulheres de talento leva a melhores resultados e passa a ser reconhecido como um tema estratégico pela grande maioria das empresas financeiras mundo afora. Tanto que atração, seleção e retenção de talentos femininos passam a estar ligados a metas e também à remuneração dos executivos.

Mas há um aspecto adicional a ser considerado na discussão de diversidade de gênero no setor financeiro que é a preocupação em garantir equilíbrio também na dimensão cliente. Ampliar oportunidades e equilibrar a oferta de serviços financeiros com a visão de diversidade e inclusão significa alavancar recursos e colher resultados. Esse é o passo que falta para que, além da mudança de atitude em relação à representatividade feminina na liderança e nos postos de trabalho, possamos também provocar uma nova onda de mudança na direção de maiores oportunidades para as mulheres de forma geral.

Os números são impressionantes. O WinFS calcula em cerca de US$ 700 bilhões o potencial de retorno a ser capturado com uma oferta mais equilibrada de serviços financeiros a mulheres que hoje são investidoras, gestoras de empresas ou empreendedoras.

Afinal, 2/3 dos orçamentos familiares são controlados por mulheres; 40% das empresas são geridas por mulheres e 40% da fortuna global é detida atualmente por mulheres. Além disso, enquanto nas grandes empresas somente 12% dos gestores das áreas financeiras são mulheres, esse número chega a 34% nas empresas menores. Por outro lado, a probabilidade de uma mulher empreendedora ter acesso a um financiamento para a sua empresa é 30% menor do que a de um homem e sua renda tende a ser, na aposentadoria, 30% a 40% menor do que a dos homens. Ainda segundo o estudo, mulheres são o grupo de consumidores com maior deficiência de atendimento no setor de serviços financeiros, apesar da sua crescente posição de influência nesse segmento.

A provocação vai além ao detalhar alguns cenários. Caso não houvesse desigualdade salarial entre homens e mulheres e as empresas de seguros vendessem seguro de vida para mulheres na mesma proporção que o fazem para homens, o valor dos prêmios na indústria de seguros aumentaria em cerca de US$ 500 bilhões. Nas relações de investimento, uma melhor gestão dos ativos detidos por mulheres geraria US$ 25 bilhões anuais adicionais em taxas de administração e outras receitas. No crédito, a expansão dos financiamentos ao consumo e imobiliário e a concessão de crédito para empresas pequenas e médias geridas por mulheres traria quase US$ 100 bilhões adicionais em retorno nas carteiras de crédito dos bancos. Ou seja, num mundo em que mais e mais mulheres tomam a frente das suas finanças, colocá-las no foco pode significar melhores resultados.

Equilíbrio de gênero no mercado financeiro vai, portanto, muito além de garantir igualdade de oportunidades de desenvolvimento profissional para mulheres cujo talento, disposição, comprometimento e potencial são limitados por barreiras culturais, conscientes ou não. Alavancar a representação feminina como cliente de serviços financeiros também dá retorno. Parafraseando Austen e tomando emprestada a sua ironia: trata-se de uma verdade universal que todo homem solteiro, detentor ou não de uma boa fortuna, busca uma mulher que saiba gerir suas finanças.

***** Agradeço ao amigo Mário Vitor Rodrigues pela lembrança do livro de Austen, cujo título e tema caíram como uma luva para a coluna de hoje.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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