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Os apressadinhos dos juros

Maioria dos analistas não vê corte de juros sem aprovação da reforma da Previdência

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2019 | 04h00

Na ausência de uma sinalização mais clara ou de declarações mais profundas pelo novo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em relação ao balanço de risco para a inflação e aos rumos da política monetária, crescem as apostas de corte de juros ao longo deste ano.

A não ser que Campos Neto se posicione ao contrário, essas apostas de redução da taxa Selic são prematuras na fotografia de hoje. Com tantas variáveis em aberto, seria precipitado o BC sinalizar corte de juros. Há dúvidas sobre questões importantes tanto no cenário político e econômico doméstico, quanto no cenário externo.

Que tipo de reforma da Previdência será aprovada no Congresso? O texto final conservará a maior parte das mudanças propostas ou será bastante diluído? E quando essa aprovação acontecerá? Quão longa será a pausa no ciclo de alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o BC americano)? Seu próximo passo será a retomada do aperto monetário ou poderá o Fed cortar os juros americanos?

Se o novo presidente do BC brasileiro decidir guiar as expectativas na direção de corte de juros antes de ter maior clareza sobre as variáveis acima, ele corre o risco de ser forçado a dar um cavalo de pau na política monetária no caso de uma surpresa negativa. E isso não seria a melhor maneira de estabelecer a credibilidade da autoridade monetária tão cedo no seu mandato.

A mediana das projeções de analistas consultados na pesquisa Focus, do BC, ainda aponta uma Selic de 6,50% ao fim deste ano, mas já há importantes instituições financeiras com apostas de redução de juros. O Banco Safra, por exemplo, prevê um corte de 1 ponto porcentual da taxa básica – 0,50 ponto em julho e em setembro – para fechar 2019 a 5,50%.

O mercado teve a oportunidade de ouvir Campos Neto durante sabatina no Senado para a confirmação do seu nome no cargo. Os poucos comentários que fez sobre a política monetária foram meramente perfunctórios, sem poder se extrair deles alguma conclusão para embasar as apostas atuais de corte ou mesmo de manutenção de juros.

Se há uma divergência crescente nas apostas sobre o nível da Selic ao fim deste ano é porque analistas e investidores estão, por enquanto, em um limbo, incertos sobre o que a nova gestão do BC realmente pensa a respeito dos riscos à inflação e à atividade econômica, além de outros temas cruciais para a definição das decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) ao longo deste ano, como a aprovação da reforma da Previdência.

É muito provável que esse suspense possa acabar apenas com a divulgação do comunicado que acompanhará a próxima decisão do Copom, cuja reunião está marcada para os dias 19 e 20 deste mês.

Hoje tem início o período de silêncio que antecede às reuniões do Copom, quando os diretores do BC evitam fazer qualquer comentário público ou privado sobre temas que afetem a política monetária.

Os que advogam redução de juros neste ano destacam a recuperação econômica mais lenta do que o previsto, com elevada ociosidade e taxa de desemprego, e também a inflação bem comportada. As projeções do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 vêm sendo revisadas, caindo de 2,50% há quatro semanas para 2,28% na mais recente pesquisa Focus. Já a estimativa de inflação neste ano encontra-se em 3,87%, bem abaixo da meta do BC, de 4,25%.

Todavia, as projeções de inflação e crescimento do PIB para 2020 deveriam ser o foco para a sinalização dos próximos passos do Copom. A maioria dos analistas acredita que dificilmente o BC cortaria os juros antes de a reforma da Previdência ser aprovada no Congresso, o que se espera acontecer apenas no quarto trimestre deste ano após a votação em dois turnos na Câmara e no Senado.

Assim, a maior parte do impacto na atividade econômica, além de outras variáveis, como a taxa de câmbio, de eventual aprovação da reforma da Previdência aconteceria em 2020. Conforme a última pesquisa Focus, em 2020, o crescimento do PIB deve acelerar para 2,80% e – mais importante – a inflação ficaria em 4,00%, justamente no centro da meta fixada pelo BC para o ano que vem. Nesse cenário, como justificar um corte de juros?

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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