Alex Wong/Getty Images/AFP
Alex Wong/Getty Images/AFP

Os banqueiros centrais falam demais?

Como o Fed e o BCE descobriram, a transparência tem suas desvantagens

The Economist, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2019 | 08h00

Imagine que você é um jornalista tentando convencer seu chefe de que cumprirá um prazo apertado. O que seria mais eficaz: uma promessa vigorosa, mas sucinta, de que você fará o que for necessário para realizar o trabalho, sem revelar a ele nenhuma das coisas que podem dar errado no meio do caminho? Ou um plano detalhado de cada passo que você vai dar – mas no qual ele poderá identificar riscos preocupantes?

É mais ou menos essa a escolha que os bancos centrais enfrentam quando precisam convencer os mercados financeiros e o público de que vão cumprir suas metas. Na última década, a preferência foi clara: quanto mais transparência e detalhes, melhor. Em 2011, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) passou a convocar coletivas de imprensa após suas reuniões de política monetária. E começou a publicar previsões econômicas dos definidores de taxas para o ano seguinte. Orientações sobre a trajetória das taxas de juros se tornaram parte do kit de ferramentas de todo o mundo desenvolvido. Os banqueiros centrais fazem cada vez mais discursos, trazendo a público debates que antes aconteciam a portas fechadas. Alguns chegam a tuitar seus pontos de vista.

A justificativa teórica para toda essa falação é forte. Quanto mais os mercados compreenderem como o banco central reagirá aos eventos, melhor eles poderão antecipar suas condutas futuras. As condições dos mercados financeiros então variam imediatamente em resposta às notícias econômicas, facilitando o trabalho dos banqueiros centrais. É como se a apresentação do seu plano detalhado ao chefe deixasse sua implementação mais fácil.

Hoje, porém, essa teoria está sendo questionada. O Banco Central Europeu (BCE) se reuniu em 24 de outubro em meio a uma acalorada discussão pública sobre política monetária. Em setembro, o BCE disse que reiniciaria a flexibilização quantitativa (QE, na sigla em inglês), a compra de títulos com dinheiro novo, e que continuaria comprando ativos até que a inflação subisse de seu atual nível de 1% rumo ao objetivo do banco, de quase 2%. “Falcões” como Klaas Knot, diretor do banco central holandês, têm sido extraordinariamente enfáticos em sua discordância. Os rendimentos dos títulos, que se movem inversamente aos preços, caíram assim que os mercados digeriram as orientações do BCE. Mas, desde então, o bate-boca os colocou na direção oposta. O preço do mercado agora também reflete as expectativas quanto à batalha política em torno da QE. Os investidores descobriram uma falha no plano.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve cortar a taxa de juros pela terceira vez este ano. Economistas do Goldman Sachs acusaram o Fed de construir um “salão de espelhos” em suas comunicações com os mercados. O Fed, argumentam os economistas, este ano sinalizou suas intenções para os mercados e, ao mesmo tempo, ouviu seus palpites. Como resultado, o Fed e os mercados entraram em uma espiral de pessimismo, ignorando a economia real. Na ânsia de entrar em contato com os mercados, o Fed se esqueceu de que é ele quem manda.

Os bancos centrais do mundo todo também precisam descobrir como dar orientações quando se deparam com uma bifurcação muito divergente no meio do caminho. Uma trégua comercial entre os Estados Unidos e a China pode transformar as perspectivas econômicas. Um Brexit sem acordo pode provocar um caos na Grã-Bretanha e se espalhar para o resto da Europa. É muito mais difícil dizer aos mercados o que esperar da política econômica quando a previsão passa por uma escolha entre extremos.

Então os bancos centrais devem falar um pouco menos? Os microeconomistas sabem há muito tempo que a ambiguidade pode ter usos estratégicos. Os contratos de trabalho, por exemplo, não especificam todas as tarefas do empregado, nem todas as obrigações do empregador, provavelmente porque é melhor deixar espaço para um lado punir o mau comportamento do outro. Nos últimos anos, Bengt Holmström, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que em 2016 ganhou o Prêmio Nobel de Economia, vem dizendo que a opacidade do banco central tem sua utilidade nos mercados de crédito. Na maioria das vezes, argumenta ele, esses mercados, ao contrário dos mercados de ações, são “insensíveis à informação” – ou seja, não reagem muito às notícias. O credor não tem grandes vantagens quando as coisas vão bem, e o default é um risco remoto, especialmente quando os empréstimos contam com garantias adequadas. “Uma situação de ‘ninguém pergunta nada’ é a marca da liquidez do mercado monetário”, diz ele.

Nas horas de pânico, porém, os mercados monetários secam à medida que os riscos aumentam. Os credores se veem obrigados a examinar todas as transações. A restauração da estabilidade, às vezes, só vem com uma promessa sem muitos detalhes e, portanto, difícil de analisar. No pior momento da crise da dívida soberana da zona do euro, por exemplo, Mario Draghi, presidente do BCE, prometeu apenas fazer “o que fosse necessário” para garantir a segurança da moeda única. Holmström também observa que, quando o Fed concedeu empréstimos emergenciais a bancos durante a crise financeira, não divulgou quais instituições receberam apoio, por medo de que alguma estigmatização pudesse provocar corridas aos bancos.

É muita informação

Uma lógica semelhante pode valer para os objetivos diários dos banqueiros centrais, como as metas de inflação? As expectativas de inflação, assim como o pânico financeiro, podem ser autorrealizáveis. Alguns economistas avaliam que as promessas dos bancos centrais de manter a inflação baixa podem ter se tornado tão dignas de confiança que o público raramente revisa suas expectativas à luz das notícias econômicas – mais um caso de “ninguém pergunta nada”.

Mas a analogia deixa de fazer sentido quando se trata de taxas de juros. As taxas variam e os mercados ficam na expectativa. Os bancos centrais podem muito bem orientar essas expectativas. Os limites da comunicação ficam mais nítidos no último round da velha luta entre aqueles que desejam que a política monetária seja definida por regras claras e aqueles que preferem a discrição. A orientação mais clara seria um algoritmo totalmente transparente que relacionasse taxas de juros a dados econômicos. Mas essa “função de reação” mecânica existe apenas nos modelos econômicos. Na realidade, os formuladores de políticas precisam fazer uso de seu juízo, o que significa que suas decisões sempre serão inerentemente dúbias.

Enquanto isso não mudar, haverá um limite para a relação entre o aumento da transparência e a previsibilidade das taxas de juros. E, como demonstra a experiência dos bancos centrais nos últimos tempos, falar pode ter suas desvantagens. Vale a pena refletir se às vezes não é melhor ficar em silêncio. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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