Os bastidores dos fundos
Conteúdo Estadão Blue Studio

Os bastidores dos fundos

A complexa rotina das tomadas de decisões

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2021 | 07h30

Não é nada trivial gerar um fundo de investimento. O processo das tomadas de decisões, além de complexo, depende de vários fatores. Por mais que possa parecer simples e automático, todas as batidas de martelo são feitas com base em dados, projeções e avaliações das tendências do mercado. “No fim, a decisão é sempre do comitê e, se houver alguma divergência, a gente discute até que haja o convencimento da minoria”, revela Gilberto Kfouri, responsável por renda fixa e multimercados da BNP Paribas Asset Management. “Realizamos vários passos e contamos com vários filtros para a tomada de decisão”, afirma Fernando Siqueira, gestor da Infinity Asset.

As equipes das gestoras fazem reuniões periódicas, que podem ser semanais ou quinzenais, para avaliar os indicadores macroeconômicos – como taxa de juros e inflação, por exemplo. Para essas reuniões, os especialistas usam filtros como relatório das próprias corretoras, balanço das empresas, dados oficiais, entre outras informações para traçar a estratégia que será adotada.

Além disso, quando algum fato inesperado ocorre, reuniões extraordinárias são realizadas para avaliar o real impacto daquela novidade para os produtos. O chamado Joesley Day é um desses exemplos. No dia em que o conteúdo da conversa entre o ex-presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista veio à tona, uma grave crise política eclodiu no País. O impacto imediato sobre o mercado financeiro fez a B3 decretar um circuit breaker, mecanismo utilizado para rebalancear as ordens de compra e venda após movimentos muito bruscos dos investidores. Naquele momento, 17 de maio de 2017, muitas reuniões extraordinárias surgiram.

“Quando acontece algo fora do normal, chamamos um comitê extraordinário para decidir o que será feito e semanalmente realizamos reuniões para discutir os temas macroeconômicos”, diz Kfouri. Segundo o gestor, as projeções da área econômica da própria empresa são a fonte de informação mais utilizada. Além disso, informações divulgadas por corretoras, bancos e até empresas também costumam ser avaliadas com frequência. Os analistas políticos, explica Kfouri, também desempenham um papel importante. “O impacto político também é significativo”, diz. O conjunto de dados, gerados pelas diferentes áreas, é que vai pesar na decisão. “A partir disso tudo, decidimos aumentar ou diminuir o tamanho de uma posição ou do risco.” De acordo com Kfouri, além de a decisão ser colegiada, todos os documentos avaliados são guardados e auditados para dar maior segurança e transparência ao processo.

No caso da Infinity, o processo bastante dinâmico envolve discussões diárias para reavaliar a estratégia. “Nessas avaliações do dia a dia, sabemos o que cada um viu de interessante, sem entrar nos detalhes. Na reunião quinzenal, com a participação de economistas e gestores, aprofundamos no que está acontecendo e no impacto para os investimentos”, explica Siqueira.

A participação dos acionistas, de um modo geral, está mais limitada aos comentários em redes sociais ou página da empresa na internet. “Os canais abertos com os minoritários são fundamentais para ter contato com os pequenos investidores e, assim, os gestores conseguem entender melhor o que esses clientes esperam”, diz Siqueira. Nas assembleias de acionistas, no entanto, o quórum ainda é pequeno.

Com cautela, investir pode virar profissão

Há mais de seis anos, Jhonatan do Vale Alves, 25, enxergou no mercado financeiro uma oportunidade para aumentar seus rendimentos. Morador de Jundiaí (SP), ele trabalhava como porteiro e ainda tinha um outro emprego, mas manter a casa era complicado. Casado e pai de uma menina, ele começou a conhecer o universo das aplicações por meio da internet. Com as informações que ele juntou de forma online, resolveu arriscar, mas de uma maneira que os especialistas consideram inapropriada.

Com um empréstimo de R$ 3 mil comprou ações na Bolsa. “Perdi tudo, mas não desisti”, afirma. Passou aí sim a estudar, pesquisar e, após aprender com os erros, começou a colher resultados melhores. “Desde 2019 tenho uma consistência e consigo gerar renda com a Bolsa de Valores”, garante.

Em 2017, começaram as operações com foco em dólar futuro, porque na época era um caminho que estava oferecendo maiores rentabilidades. “Fiquei cego pela ganância e sofri com isso”, admite. “Passado um tempo, me especializei em mini-índice e atualmente opero com ele”, diz.

A rotina de trader é seguida todos os dias. “Me informo das notícias do cenário externo e interno, assisto a um morning call para ter uma base do que pode acontecer no dia e quando sento para operar sei onde tenho que vender e onde tenho que comprar”, explica. “Tenho total paciência para aguardar o preço chegar aonde desejo e lido com tranquilidade com as oscilações, que devem ser encaradas como algo natural.”

Com quatro anos atuando nesta área, Alves considera que está mais maduro para tomar iniciativas, mas sabe que ainda é possível melhorar. “Esse mercado de trader/investimentos tem muito a crescer e, antes, quando trabalhava em uma empresa, fazia em média um salário mínimo por mês, porque operava um dia sim outro não. Neste ano que estou 100% focado nos investimentos, o resultado triplicou”, relata Jhonatan.

Virar um trader em uma mesa proprietária é sempre um grande desafio. A dica dos especialistas é que esse passo não deve ser dado sem muito estudo para conhecer a fundo as operações. Como mostra a experiência do ex-porteiro de Jundiaí, além de ter conhecimento aprofundado de investimentos, certas características ligadas à inteligência emocional do operador também são importantes. Cabeça fria, foco, disciplina, muito estudo e, principalmente, paciência não devem ficar em segundo plano, afirma Alves.

Conteúdo produzido pelo estadão blue studio, a área de conteúdo customizado do estadão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.