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Os BRICs de olho na Itália

É esperado que o ano de 2011, no qual será comemorado o ano da Itália no Brasil, oficialmente "Momento Itália Brasil", seja marcado por uma forte movimentação de companhias de mercados emergentes, como o brasileiro, investindo na Europa e mais especificamente na Itália via operações de fusões e aquisições.

Salvatore Milanese e Marco Curatella, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2011 | 00h00

A razão dessa tendência é justificada pela conhecida situação econômico-financeira da Europa e pela forte capitalização de empresas dos BRICs. De fato, num contexto no qual a economia europeia mostra sinais ambíguos de recuperação na Alemanha e uma crise sem fim das nações conhecidas como PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), companhias dos países do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) buscam bons negócios de olho nos segmentos de tecnologia, moda, energia, mecânica, defesa e bens de consumo; aproveitando os preços deprimidos dessas operações, que oferecem ótimos produtos e/ou tecnologia de ponta.

Essa postura oportunista das empresas emergentes no cenário global de fusões e aquisições vem ganhando força. Uma pesquisa internacional da KPMG que compara o fluxo de transações entre companhias de países desenvolvidos e emergentes mostra que para cada três aquisições de empresas emergentes por um investidor ocidental - o caminho mais tradicional do fluxo de investimentos -, atualmente, há pelo menos uma ocidental sendo adquirida por um concorrente vindo dos BRICs. Somente no primeiro semestre de 2010, foram realizadas 243 aquisições de empresas ocidentais por companhias de países emergentes, o que representa 25% de aumento em relação ao mesmo cenário de 2009.

Especialmente na Itália, nota-se que o número de empresas de médio e pequeno porte assoladas pela crise financeira mundial, mas proprietárias de negócios sólidos e sustentáveis, tem se tornado alvo de companhias chinesas, russas e até indianas, que estão à procura de novos mercados que tenham diferenciais de qualidade e um alto know-how tecnológico.

Corroborando esta movimentação, dados da KPMG Itália mostram que só no ano passado, de janeiro a setembro, foram investidos 121 milhões de euros em aquisições realizadas por empresas dos países do BRIC naquele país. E essa movimentação de compras não mostra sinais de que vai parar agora em 2011, pois considerando os altos e baixos da economia italiana, as companhias em crise, principalmente as médias e as pequenas, tornaram-se alvos "fáceis" para investidores e companhias capitalizadas dos BRICs. De acordo com o levantamento da KPMG Itália, os setores que deverão atrair mais capital em 2011, além daqueles com alto conteúdo tecnológico, serão os de varejo e serviços financeiros.

Tendência. Tirando poucos casos de grandes corporações brasileiras que estão indo às compras nos mercados internacionais, essa tendência ainda tem muito espaço para crescer entre as empresas de capital nacional, de um modo geral. Comparando a movimentação dos países do BRIC, analisamos que a Índia é o país mais ativo, considerando-se que, no primeiro semestre de 2010, foram realizadas 50 aquisições de grupos ocidentais por empresas indianas, enquanto a China aparece como segundo player, com 39 operações.

A maioria dos movimentos de internacionalização de empresas brasileiras ainda é muito concentrada em aquisições realizadas nos Estados Unidos ou em países da América Latina. Só em 2010, das 65 transações envolvendo empresas brasileiras adquirindo companhias estrangeiras, quase 25% foram feitas nos EUA, segundo levantamento da KPMG no Brasil.

Os especialistas apostam, no entanto, em uma tendência de diversificação de mercados no fluxo de investimentos do Brasil. As empresas locais que buscam a internacionalização ou que pretendem ampliar suas regiões de atuação devem ficar atentas, pois grandes oportunidades surgirão no mercado europeu, com destaque para Itália.

Entre as principais motivações que estimulam investimentos na Itália podemos destacar o país como uma porta de entrada direta para o mercado europeu, além, claro, da oportunidade de adquirir capacitação tecnológica e alta expertise a custo relativamente baixo. Esses fatores podem acelerar a expansão internacional das empresas brasileiras e, conforme cada caso, contribuir para incrementos de produtividade.

Entendemos que esse fenômeno, quase um "retorno às origens" por algumas das companhias que buscam investir na Itália, não seja simplesmente uma situação contextual e de oportunidade, mas o indício de uma gradual, porém inevitável, alteração dos atuais equilíbrios econômicos operados pelos países BRIC no mundo globalizado.

Alternativa. Reciprocamente, o potencial de crescimento atual do mercado brasileiro, diante da gradual recuperação pós-crise econômica da Europa, também tem despertado a atenção de alguns grupos italianos com diferenciais competitivos ou atuação de nicho, principalmente nos setores de componentes automotivos, bens de consumo duráveis e energias renováveis. Isso porque, esses empresários enxergam hoje o Brasil como uma alternativa viável para escapar de uma economia que ainda se encontra em crise e também como uma fonte de diversificação de investimentos, apostando nas perspectivas positivas dos negócios no Brasil.

SÓCIO RESPONSÁVEL PELA ÁREA DE RESTRUCTURING E SÓCIO RESPONSÁVEL PELA ÁREA DE FUSÕES E AQUISIÇÕES DA KPMG NO BRASIL

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