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Os candidatos a Houdini de Pequim

Com velocidade extraordinária, a China se transformou de um jogador tímido nas finanças internacionais num jogador impetuoso e impaciente. Há seis meses, podia-se pensar sobre se os chineses estavam interessados em um maior papel no Fundo Monetário Internacional (FMI) ou em ajudar a reconstruir o sistema global atingido pela crise. Agora, eles estão injetando quase US$ 40 bilhões numa nova versão de FMI do Leste Asiático, coagindo parceiros comerciais a usar o yuan e circulando ideias fantásticas sobre uma nova moeda de reserva internacional. Em visita a Pequim, na semana retrasada, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, aderiu à mudança de ânimo de seus anfitriões. Na defesa de "uma nova ordem econômica", ele sugeriu que já era hora de parar de denominar o comércio em dólares. É ótimo que a China esteja se manifestando. O país conta com uma grande porção das poupanças do mundo e contribui com boa parte de seu crescimento. Para surgir uma ordem mundial estável desta crise, será preciso que a China compre em larga escala. Mas há também um lado menos brilhante na transformação do país: sua contribuição para o debate global é, em grande parte, confusa. Por que os chineses encontraram sua voz? Em poucas palavras, eles compraram tanto no sistema internacional que já não podem ficar indiferentes a ele. Ao incorrer em superávits comerciais imensos, eles acumularam vastas posses de títulos e ações em dólar, a moeda no centro das finanças globais. Se o dólar cair, o governo chinês pode perder uma fortuna. O coice político da perda poderia ser brutal. Blogueiros chineses já malharam as autoridades que investiram US$ 3 bilhões no grupo de private equity americano Blackstone e viram as ações despencar. "Eles são piores que traidores em tempo de guerra", vociferou um comentarista online, segundo o jornal Financial Times. Uma forte queda do dólar faria o prejuízo na Blackstone parecer um piquenique. Por isso, as autoridades chinesas estão procurando uma maneira de reduzir sua exposição em dólar. O método mais garantido seria parar de comprar títulos do Tesouro americano, mas isso significaria permitir que a moeda chinesa subisse ante o dólar, o que prejudicaria os exportadores chineses num momento em que eles já estão com dificuldades. Por isso, o governo está à procura de alguma coisa - qualquer coisa - que possa tirá-lo da armadilha do dólar sem valorizar a própria moeda. As ideias da China são de duas categorias. A mais exótica apareceu inesperadamente no site do banco central chinês - ele próprio deu um sinal impressionante das ambições do país de moldar a nova ordem. Ela propunha que o FMI ampliasse fortemente sua emissão de "direitos especiais de saque" (SDR, na sigla em inglês), a quase moeda multilateral idealizada no fim dos anos 60. O FMI trocaria esses SDRs por alguns dólares da China e - pronto! - a exposição em dólares do país diminuiria. Mas o nó é que nem o FMI, nem um dos governos, ficaria com o controle da bolsa. A ideia não tem futuro. A outra abordagem da China é promover o uso global da sua moeda. Seu banco central ofereceu o yuan à Indonésia e à Argentina em troca de rupias e pesos. Ele espera que uma quantidade maior de comércio seja feita em yuan. Sua contribuição ao novo fundo de reserva do Leste Asiático tipo FMI pode um dia significar que um país à beira da crise na região capte recursos parcialmente em yuan. Tudo isso tem a intenção de comprar alguma respeitabilidade para a moeda chinesa. Mas, como fuga da China da armadilha do dólar, é risível. A ideia é que, quando o yuan se tornar internacional, estrangeiros estarão dispostos a se endividar nele. Assim, a China pode continuar mantendo um superávit comercial e exportando capital, mas, em vez de acumular títulos em dólar, poderia acumular títulos em yuan. De novo - pronto! - a exposição da China ao dólar seria reduzida. Mas o nó seria o mesmo que a ideia do FMI: o risco cambial seria transferido, neste caso, a credores da China. Como o yuan é mantido artificialmente baixo pela política chinesa e quase certamente se valorizará no médio prazo, um estrangeiro teria de estar desesperado (ou ser coagido) para ajudar a China a sair de seu impasse endividando-se na sua moeda. Assim, nem a ideia do FMI nem as tentativas dispersas de internacionalizar o yuan tirarão os chineses de seu dilema. A China acumulou pelo menos US$ 1,5 trilhão em ativos em dólares, segundo meu colega Brad Setser, do Centro de Relações Exteriores, por isso, uma alteração de 30% (altamente plausível) na relação yuan-dólar custaria ao país em torno de US$ 450 bilhões - cerca de um décimo de sua economia. E a sua determinação de controlar a valorização do yuan a obriga a comprar outros bilhões de ativos em dólares a cada mês. Como um viciado numa máquina caça-níqueis, a China está contribuindo para sua aposta sem esperança, garantindo que seus prejuízos serão ainda maiores. É fácil apreciar o súbito apetite da China por ideias novas e ousadas sobre finanças internacionais. Mas os líderes de Pequim parecem mais candidatos a Houdini que arquitetos de um novo Bretton Woods. *Sebastian Mallaby é analista do instituto independente Centro de Relações Exteriores e colunista do ?The Washington Post?

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