Os carros robóticos pilotados por humanos

Os carros robóticos pilotados por humanos

Custo da tecnologia para pilotar veículos autônomos está caindo, mas ainda é alto; com salário baixo, motorista humano é concorrente formidável para carros robóticos

Economist.com

24 de outubro de 2014 | 17h42


Empresas de tecnologia que vão do Google à Audi fizeram incríveis avanços na tecnologia dos veículos autônomos nos anos mais recentes. Este progresso é ainda mais notável se considerarmos que, dez anos atrás, os tecnólogos concluíam que dirigir era uma tarefa quase impossível de ser automatizada. Mas, apesar do extraordinário ritmo das melhorias, os carros sem motoristas ainda atraem muitos céticos.

Alguns acreditam que advogados e reguladores vão impedir que esses carros alcancem seu pleno potencial, embora muitos governos locais tenham se mostrado surpreendentemente abertos à criação de regras para acomodar os novos veículos sem motorista. Outros críticos dizem que os obstáculos tecnológicos remanescentes podem se mostrar quase impossíveis de superar. Mas as preocupações desse tipo parecem exageradas, porque o progresso recente indica que é fácil superestimar os obstáculos e as limitações que restam se assemelham ainda mais às enfrentadas pelos humanos.

Numa reportagem para a Slate, por exemplo, Lee Gomes diz que os carros sem motorista passam por dificuldades em território desconhecido quando não contam com bons mapas, pode cometer erros quando o Sol cega suas câmeras e são ocasionalmente surpreendidos pelo surgimento inesperado de nova sinalização de trânsito. Os motoristas humanos também sofrem com esses problemas, é claro, além de outros: como dificuldades de operação em condições climáticas adversas. Nesses casos, a grande diferença entre os carros sem motorista e os humanos é o fato de o computador ter a possibilidade de ser programado para se comportar com cautela diante das variáveis adversas, enquanto os humanos costumam seguir indiferentes a elas. Ao criticar os carros sem motorista é sempre bom ter em mente que motoristas humanos matam e aleijam milhões de pessoas por ano.

Ironicamente, o maior obstáculo ao amplo uso dos veículos sem motorista, ao menos para os próximos dez ou vinte anos, pode ser o efeito do rápido progresso tecnológico em outras partes da economia. Como explica um recente relatório especial, a mudança tecnológica no decorrer da geração mais recente eliminou muitos empregos de habilidade intermediária, levando milhões de trabalhadores a concorrerem por trabalho de baixos salários. Essa fartura de oferta de mão de obra contribuiu para a estagnação dos salários para a maioria dos trabalhadores, e a baixa remuneração, por sua vez, reduziu para as empresas o incentivo à implementação de tecnologias de substituição do trabalho humano. Por que buscar a automação quando há uma imensa oferta de mão de obra barata à disposição? Ao mesmo tempo, empresas como Uber estão tornando o uso de carros alugados mais barato e conveniente, reduzindo para muitos lares o atrativo de ter e pilotar seus próprios carros.

A combinação do Uber e da mão de obra barata pode representar um desafio formidável para o carro sem motorista. O custo dos sensores e processadores necessários para pilotar um veículo autônomo está caindo, e deve seguir nessa tendência com o aumento na produção. Mas a tecnologia ainda é cara, especialmente quando comparada a um ser humano, que é afinal um pacote relativamente eficiente de equipamento de processamento sensorial-informacional. Com o salário baixo, o motorista humano dono de um smartphone é um concorrente formidável para um veículo sem motorista.

Seria uma notável ironia se o carro sem motorista - sob muitos aspectos o símbolo da revolução tecnológica que está agora redefinindo a economia moderna - deixasse de se materializar enquanto realidade econômica graças ao poder de outras tecnologias de afetar negativamente o emprego. Seria também uma ilustração perfeita de como a estagnação nos salários pode provocar a lentidão no crescimento em termos de produtividade medida.

A possibilidade de um mundo no qual uma parcela relativamente grande da população trabalha como motoristas, simplesmente porque o trabalho humano se tornou barato demais para que essa função seja automatizada, deveria levar as mentes a se concentrarem na natureza do desafio de políticas públicas que as economias começam a enfrentar. Será que o trabalho - e o elo entre trabalho e a obtenção de uma renda suficiente para a sobrevivência - é tão importante para a sociedade a ponto de desejarmos que milhões de pessoas funcionem como meatware: ocupando-se de funções que sensores e computadores poderiam desempenhar se não houvesse um excesso de humanos precisando de trabalho para garantir seu abrigo e alimento?

Não se trata de uma pergunta retórica. Temos um autêntico quebra-cabeça que as sociedades terão de enfrentar nas próximas décadas. Para muitos, a resposta obviamente é não, assim como para outros tantos a resposta será sim, igualmente óbvia. Não sabemos qual lado sairá triunfante neste debate.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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