Os centavos que faltam para a educação

O tempo passou, mas as vozes que dominaram as ruas do País em junho continuam ecoando em nossos ouvidos e, principalmente, em nossa consciência.

Claudio Bernardes *, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2013 | 02h03

O governo tenta responder ao clamor popular anunciando medidas como a realização de um plebiscito para promover a esperada reforma política, iniciativa que não teve apoio da população e menos ainda dos parlamentares. Nada surpreendente. Tal reforma, há anos pleiteada para conferir novos rumos ao País e fortalecer a democracia, é fundamental, mas o calor das eleições não oferece as melhores condições para discutirmos, com a necessária serenidade, matéria tão relevante.

Quanto à corrupção, outra questão levantada nas ruas, discute-se a eficiência de propostas como tipificá-la como crime hediondo. Sem dúvida, se não for esta, alguma ação contundente deve ser adotada. Mas o mais importante é que esses movimentos tenham o condão de promover em todos nós as transformações interiores que nos farão mudar de comportamento em relação à coisa pública, aos padrões de ética e moral e ao cumprimento estrito das regras que organizam a sociedade.

No que diz respeito à saúde, a proposta governamental de importar médicos ou adicionar dois anos (dedicados ao SUS) aos cursos de Medicina destoa de uma realidade em que há hospitais e postos de saúde sem a mínima infraestrutura para funcionar. Por outro lado, talvez seja uma ideia positiva tomar como norma que todos os que estudam em universidades públicas (não só estudantes de Medicina) devolvam à sociedade, em trabalho para a comunidade, o benefício recebido.

Evidencia-se que respostas satisfatórias ao clamor das ruas ainda são aguardadas. Dentre elas, talvez a de maior valor para o nosso desenvolvimento esteja relacionada à estruturação do modelo educacional no País.

O Brasil se destaca mundialmente em razão de seu déficit educacional. Segundo ranking elaborado em 2011 pela Unesco, organismo da ONU dedicado à cultura e à educação, ocupamos o 88.º lugar no rol de 127 países. Estamos atrás de Equador, Bolívia e El Salvador, por exemplo.

É claro que houve melhorias. O Relatório de Monitoramento Global mostra como exemplar nosso programa de combate ao analfabetismo. Embora ainda haja cerca de 14 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, o Brasil foi um dos países que mais aumentaram seus investimentos em educação. Outro exemplo: entre as melhores universidades do mundo com menos de 50 anos, o País aparece em 28.º lugar com a Unicamp, segundo levantamento divulgado este ano pela publicação inglesa Times Higher Education.

Mas o que dizer do ensino fundamental? Recentemente, em visita à Coreia do Sul, foi possível avaliar o quanto estamos distantes de uma política de educação eficaz. Para começar, lá o professor é bem remunerado, capacitado e respeitado. O governo local investe maciçamente no ensino (5% do PIB, ou US$ 47 bilhões, conforme dados do Banco Mundial de 2009), especialmente na formação dos mestres e na melhoria da estrutura das escolas. Todos os alunos, sem exceção, estudam em período integral, de 8 horas, e não raro têm ações educativas complementares depois das aulas, o que estende o processo de aprendizagem. Lá se privilegiou a educação primária, e só quando esta se tornou universal o governo passou a destinar recursos ao segundo e ao terceiro graus. A opção pela educação garantiu formação cultural e competitividade. Hoje, o país, que até 1960 era um dos mais pobres do planeta, figura como a 15.ª economia mundial, exportadora de tecnologia de ponta.

Quando é que o Brasil vai de fato cuidar do ensino? Há dois anos tramita no Congresso a proposta de aumentar o valor destinado à área, uma das metas do Plano Nacional da Educação. Mais recentemente, foi aprovado o direcionamento de recursos dos royalties do petróleo. Mas até quando a sociedade ficará esperando os centavos que faltam para a educação?

*Claudio Bernardes é presidente do Secovi-SP, o sindicato da habitação, e reitor da Universidade Secovi.

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