'Os dados apontam para um terceiro trimestre ruim'

Estoques altos na indústria, confiança deteriorada e piora do mercado de trabalho adiam a recuperação

Entrevista com

Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro do Ibre/FGV

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2015 | 02h04

Além da forte recessão observada no 2.º trimestre, a economista Silvia Matos acredita que o 3.º trimestre vai seguir trazendo resultados negativos para a economia brasileira. "Infelizmente, os dados apontam para um 3.º trimestre ruim", afirma ela, também coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual é a sua avaliação sobre os dados do IBC-Br?

Os números confirmaram a expectativa que nós temos no Ibre, de uma queda bem expressiva no 2.º trimestre quando comparado com o trimestre anterior. Os dados do IBC-Br indicam um recuo de 1,9%, e nós projetamos uma queda um pouco mais forte, de 2,1%.

Qual é a projeção de crescimento para este ano e para 2016?

Por enquanto, estamos projetando uma recessão de 2,2% em 2015, mas devemos rever este número. Estamos revisando para uma queda um pouco acima de 2,5%, entre 2,5% e 3%. Para 2016, o carregamento estatístico fica mais negativo, e a gente também deve rever a projeção de queda de 0,1% para um resultado pior.

Qual é a expectativa para o 3º trimestre?

Esperava que poderia ser um pouco melhor, mas infelizmente os dados apontam para um 3.º trimestre ruim.

Por quê?

O setor industrial está muito estocado e os indicadores de confiança setoriais estão ruins. Já se sabia que a indústria iria desacelerar este ano, assim como a construção. Mas a piora do mercado de trabalho também contribuiu para uma desaceleração mais forte do setor de serviços e isso tem se intensificado. A nossa dúvida é saber se a economia vai conseguir ter uma recuperação no fim deste ano ou se isso vai ocorrer no começo de 2016.

O que mais deveria ser feito para a melhora da economia?

Em algum momento, o País vai colher frutos desse processo de ajuste como, por exemplo, em relação ao comportamento da inflação - talvez, não todo em 2016, por causa dos choques que podem vir dos administrados e da variação cambial. Mas quando há um ajuste forte cambial, há um reflexo nas contas externas. Uma coisa que está contribuindo para um cenário um pouquinho mais favorável não só neste ano, mas também em 2016, vem do ajuste externo. O ajuste cambial é relevante porque o déficit externo se tornou muito elevado para o nosso padrão. Mas seria importante dar um passo adiante para reduzir a avaliação de risco da economia.

Quais seriam esses passos?

Hoje, o risco do País está muito envolvido com essa dificuldade política de não apontar as soluções de médio e longo prazo. Estamos numa trajetória contínua de aumento de gastos acima das nossas possibilidades. O gasto deveria ser mais de acordo com o ciclo econômico. O cenário político tem tornado o ajuste um pouco mais doloroso e demorado.

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. PaulorecessãoPIB

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.