Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Os dentes afiados da recessão

A freada de uma economia antes vibrante assusta tanto as pessoas comuns como os economistas; desesperança aumentou com a S&P

O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2015 | 02h02

Postos de recolocação profissional não costumam ser ambientes dos mais alegres. No Brasil, onde eles com frequência são vistos como a última alternativa, a que recorrem apenas aqueles que não dispõem dos contatos pessoais que azeitam boa parte da vida nacional, o clima em seu interior pode ser particularmente desolador. Aguardando a vez de ser atendido num desses postos, na região central de São Paulo, o motorista Francisco, de 54 anos, desempregado há dois, diz que as filas de atendimento nunca foram tão grandes. "É a crise", lamenta.

Fazia anos que a economia brasileira vinha apresentando crescimento anêmico. Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, entre 2011 e 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu, em média, 2% - apesar da forte expansão na demanda mundial pela soja, pelo minério de ferro e pelo petróleo do País. A interferência excessiva do governo no setor privado, combinada com uma política monetária e fiscal demasiadamente frouxa, minou a confiança. O investimento secou e a inflação disparou. Agora, sem a muleta das commodities, o PIB engatou a marcha à ré (contração, em relação aos três meses anteriores, de 1,9% no segundo trimestre de 2015), arrastando consigo um mercado de trabalho que até então vinha aguentando as pontas.

De janeiro para cá, quase 500 mil pessoas perderam o emprego. Pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) calculam que outros 2,5 milhões de postos de trabalho serão eliminados até o fim de 2016. O desemprego chegou a 7,5% em julho, ante 4,9% em julho do ano passado -, a alta anual mais acentuada de que há registro. A expectativa é que o desemprego alcance os 10% até o fim do ano que vem e permaneça nesse patamar por algum tempo. São poucos os brasileiros que não conhecem alguém que tenha recorrido recentemente ao seguro-desemprego.

A desesperança, que por toda parte já era grande, ficou ainda maior quando a Standard & Poor's rebaixou para grau especulativo os títulos da dívida brasileira, depois que a presidente Dilma, numa iniciativa desastrada, tentou transferir a um Congresso já pouco cooperativo a responsabilidade por equilibrar o Orçamento de 2016. A agência de classificação de risco não parou por aí: rebaixou também a nota de uma dezena de grandes empresas brasileiras, incluindo alguns bancos de grande porte. A Petrobrás, que já estava no centro do maior escândalo de corrupção da história do Brasil, conquistou a distinção adicional - não exatamente proveitosa - de ser agora a maior empresa do mundo sem grau de investimento. No início de 2015, a estatal respondia por cerca de 10% do total de investimentos na economia brasileira; agora talvez tenha de realizar um corte em suas despesas de capital superior aos 40% anunciados em junho.

A decisão da S&P foi motivada, sobretudo, por preocupações que não vêm de hoje. Nem o mercado de ações, nem o real - com desvalorização acumulada de 30% ante o dólar, de janeiro para cá - sofreram perdas muito significativas depois do anúncio; sinal de que o rebaixamento já estava, em grande medida, precificado. Mas a decisão da agência certamente contribui para aumentar o desalento. O custo da contratação de empréstimos, tanto para o setor privado, como para o público, que já era alto, vai ficar mais salgado, aumentando assim o risco de novos rebaixamentos nas classificações de crédito. Os fundos mútuos e de pensão, que só podem manter em carteira ativos com grau de investimento, terão de se desfazer dos títulos brasileiros em ritmo mais acelerado, antecipando-se a decisões similares por parte da Moody's e da Fitch. (Em geral, é só depois que duas das três grandes agências de classificação de risco aplicam o rótulo de "investimento especulativo" aos títulos de um país que esses fundos são obrigados a se desfazer deles.)

Para o Brasil de hoje, com sua economia diversificada e suas abundantes reservas cambiais, isso não terá o efeito debilitante que teria no passado, quando a situação era mais caótica. Ilan Goldfajn, do Banco Itaú, acredita que o fluxo anual de capital estrangeiro tende a cair bastante em relação aos US$ 45 bilhões registrados em 2014, mas não deve ficar abaixo de US$ 10 bilhões em 2016.

Mesmo assim, com o desinvestimento, o Brasil terá mais dificuldade para sair de sua pior recessão nas últimas décadas. Em levantamento feito esta semana pelo Banco Central com analistas de mercado, as projeções de crescimento foram mais uma vez revisadas para baixo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acredita que o PIB brasileiro deve encolher 2,8% este ano e 0,7% em 2016. A desvalorização do real gerou pressões inflacionárias, que o Banco Central vem penando para debelar com elevações (contracionistas) da taxa de juros. Em razão disso, os exportadores - com exceção do hipercompetitivo setor agrícola brasileiro - não puderam se beneficiar da desvalorização cambial. Poucos esperam que a economia volte a crescer antes de 2018, quando o eleitorado escolherá o sucessor de Dilma. A renda per capita, que atingiu seu nível mais elevado em 2011, deve levar mais tempo para se recuperar.

Desde que renegou as políticas intervencionistas de seu primeiro mandato, a presidente brasileira vem tentando, sem sucesso, encontrar um meio-termo entre a ortodoxia fiscal, defendida pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy, e os estímulos propugnados pelo titular do Planejamento, Nelson Barbosa, e muitos no PT. Com o intuito de aplacar o descontentamento crescente entre os partidários da disciplina fiscal, na segunda-feira o governo apresentou mais um pacote - desta vez no valor de R$ 65 bilhões (US$ 17 bilhões) - de medidas de austeridade, incluindo o congelamento dos reajustes salariais do funcionalismo público e o controverso imposto sobre movimentações financeiras.

Como aconteceu anteriormente, não se observa no governo grande entusiasmo com a implementação de um pacote que, se por um lado, não é suficiente para pôr as finanças públicas em ordem e instaurar um ambiente econômico mais favorável, por outro, é mais do que suficiente para atiçar rebeliões no Congresso, sobre o qual a presidente, com sua impopularidade nas nuvens, não exerce controle algum, e onde ganha força o movimento para promover seu impeachment. Por ora, Dilma vem conseguindo se manter no emprego. Muitos brasileiros comuns não têm tido a mesma sorte.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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