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Os desafios da música digital

Não está claro se o modelo do streaming vai realmente se sustentar

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2017 | 05h00

Às vezes, em meio ao furacão, não parece. Mas a virada digital no negócio da música está sendo rápida, muito rápida. No ano de 2014, pela primeira vez, serviços de streaming como o Spotify ultrapassaram em faturamento a venda de CDs. Em 2016, ultrapassaram os downloads de faixas de lojas como a iTunes e Google Play. Mais do que isso: o streaming fechou o ano passado, pela primeira vez, maior do que o Netflix em número de usuários. Mas nada disso é, necessariamente, uma boa notícia para quem vive de fazer música.

Não faz muito, a promessa era outra. Sean Parker, um dos investidores iniciais do Facebook e também do Spotify, prometia em 2014 que o modelo do streaming seria “capaz de levar a indústria de volta aos números de seu auge, no final da década de 1990”. Não aconteceu. Artistas ganhavam um porcentual fixo por venda de seus discos ou download de músicas. Hoje, recebem menos de um centavo de dólar a cada vez que uma faixa é ouvida. O dinheiro é razoável para aqueles grandes sucessos. Mas para artistas independentes ou mesmo os dedicados a públicos sofisticados, porém menores, como jazz e clássicos, a expectativa de fazer algum dinheiro é nula.

E, ainda assim, não está claro se o próprio modelo do streaming será realmente capaz de se sustentar. Basta mergulhar nos números.

O Netflix, que é o maior serviço de streaming de vídeos do mundo, encerrou 2016 com 93,8 milhões de assinantes. O conjunto dos serviços de streaming encerrou o ano com 100,4 milhões, segundo a consultoria Midia. O crescimento foi estupendo, 48% maior do que o ano anterior. O faturamento do Netflix, porém, deve bater em US$ 8,38 bilhões. Estes números ainda não foram publicados. Mas, nos primeiros nove meses do ano passado, a empresa apurou um lucro de US$ 120 milhões. A margem é estreita, até porque os gastos com produção e promoção de séries exclusivas têm sido altos.

Destes 100,4 milhões de assinantes de música por streaming, 43 milhões usam Spotify e 20,9 milhões seguem com a Apple Music, em segundo lugar. Para a Apple, o negócio da música é secundário. A empresa está no ramo de vender iPhones. A música só ajuda. O Spotify conseguiu um faturamento de US$ 2,18 bilhões que representou um prejuízo de US$ 194 milhões.

O principal serviço de streaming, nas contas de Tim Ingham, do site Music Business Worldwide, ainda não conseguiu fechar um modelo robusto que cobre um preço capaz de sustentá-lo. O problema é o seguinte: pelos cálculos de analistas, é bem provável que o teto do número de assinantes possíveis na faixa de US$ 10 esteja próximo de ser encontrado. Talvez agora mesmo em 2017.

Após Spotify e Apple, seguem no ranking Deezer, Napster, Tidal e outros. O maior tem quase 7 milhões de assinantes e o menor não conseguiu cruzar a barreira do milhão. Se realmente houver este teto de crescimento, só haverá um jeito de o negócio do streaming se tornar sustentável. Falência ou aquisição dos pequenos. O mercado terá de se consolidar entre dois ou três jogadores, não mais.

Isto resolverá o problema das empresas, mas não o dos artistas de médio e pequeno porte. O negócio mudou e a venda de música gravada pode ter se tornado, em definitivo, incapaz de sustentar quem faz a arte de fato.

Não quer dizer que seja inútil: música gravada pode terminar como publicidade. Uma ferramenta para engajar via redes sociais um grupo grande o suficiente de fãs que possa sustentar shows frequentes. Música ao vivo é o negócio. A tese não é nova e, para alguns, vem funcionando.

Mas isso faz com que música não seja mais o único talento necessário aos músicos. É preciso, também, capacidade de se vender constantemente.

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