Os desafios sociais de Matopiba

A agricultura brasileira tem acumulado recordes no crescimento da produção. Esse desempenho tem sido bastante generalizado, mas a intensidade variou entre as regiões e também nos indicadores do bem-estar desencadeados por esse crescimento. Não é novidade que a contribuição do Centro-Oeste foi primordial para o crescimento recente. Mais importante, os avanços resultantes da atividade agropecuária trouxeram melhorias expressivas à qualidade de vida da população.

Daniela de Paula Rocha e Ignez Vidigal Lopes, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2015 | 02h04

Segundo a Pesquisa Municipal Agrícola de 2013, do IBGE, o município de Sorriso (MT) despontou no ranking de maior valor bruto da produção (VBP) de lavouras no País e vem disputando a primeira colocação com São Desidério (BA), que já ocupou o topo em anos anteriores.

São Desidério (BA), com outros 336 municípios (segundo delimitação proposta pela Embrapa), integra a região conhecida como Matopiba, que abrange o Estado do Tocantins e partes dos Estados do Maranhão, Piauí e Bahia. Do total do VBP das lavouras gerado pelos quatro Estados, 61,7% são atribuídos aos municípios pertencentes à Matopiba. Entre 2006 e 2013, o crescimento médio do VBP das lavouras desse conjunto de municípios foi de 10,4% ao ano. Embora reconhecida por seu desempenho, pouco se tem tratado das características do crescimento que se processa nessa região.

Diferentemente do que se observa no Centro-Oeste, Matopiba ainda está longe de produzir reflexos em termos de melhorias apreciáveis de bem-estar para a sua população, fato evidenciado por um conjunto de indicadores construídos para a região, a partir dos dados municipais do IBGE.

Uma parcela de 72% dos municípios de Matopiba (244), segundo esses indicadores, tinha mais de 20% dos seus residentes no meio rural em extrema pobreza (proporção de pessoas residentes em domicílios rurais particulares com rendimento de até R$ 70,00). Outro indicador alarmante é o do rendimento médio mensal domiciliar per capita no meio rural, em que apenas cinco municípios - Mateiros (TO), Figueirópolis (TO), Luís Eduardo Magalhães (BA), Palmas (TO) e Oliveira de Fátima (TO) - tiveram valor médio acima do salário mínimo à época do Censo Demográfico (R$ 510,00). Pouco mais de um quarto da população rural dos municípios da região (85) tinha rendimento acima de meio salário mínimo e 315 municípios registraram mais de 50% da população residente em domicílios rurais e urbanos ganhando até meio salário mínimo per capita.

Ao combinar a mesma categoria de rendimento (até meio salário mínimo) e saneamento inadequado, o número de municípios salta para 336, incluindo praticamente todos da região.

Na educação, mais de 25% da população com 15 anos ou mais de 131 municípios (39% do total) não sabia ler e escrever. O que mais chama a atenção é que em só um município (Palmas-TO) a taxa média foi abaixo de 5% e em sete, abaixo de 10%. São Desidério, um dos destaques nacionais no VBP de lavouras, tem taxa de analfabetismo de 25,5%. Avaliando as proporções de pessoas por faixa de escolaridade, a situação é ainda mais crítica, com forte concentração nos níveis mais baixos.

A situação é totalmente distinta da observada no Centro-Oeste, onde não faltam municípios com economia rastreada na agricultura na lista das menores taxas de analfabetismo no País, como Lucas do Rio Verde, Chapadão do Céu, Chapadão do Sul e Sorriso.

O governo tem uma proposta para a criação de uma agência para impulsionar o desenvolvimento da região de forma planejada cujo foco é a melhoria da logística de transporte, que, com certeza, é relevante. Não obstante, essa prioridade não pode estar dissociada do estabelecimento de metas que visem a um desenvolvimento mais inclusivo, capaz de alterar o quadro retratado acima. Em particular, que inclua o compromisso com a redução do analfabetismo e a melhoria da escolaridade da população, associado a uma política de capacitação e treinamento que possa absorver a força de trabalho regional e resultar em melhoria de renda.

*Daniela de Paula Rocha e Ignez Vidigal Lopes são pesquisadoras do IBRE/FGV

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