Os desdobramentos do acordo entre Embraer e Boeing

Análise: Roberto Godoy

JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h03

O acordo entre a Embraer e a Boeing é um feito e tanto. Terá efeitos importantes de curto prazo em duas vertentes, apenas uma das quais - a dos benefícios diretos para o programa do cargueiro militar e avião tanque KC-390 - foi admitida durante a conferência de imprensa. A outra, mais delicada, é a da influência que o compromisso entre as empresas americana e brasileira possa vir a ter na escolha F-X2, a aquisição do novo caça de alta tecnologia e múltiplo emprego, negócio que a presidência da República encaminha para a fase de definição final. Não por acaso, na reunião de ontem a Boeing estava representada por Dennis Muilenburg, presidente e CEO da unidade de negócios do grupo voltada para os mercados de Defesa, Espaço e Segurança.

A corporação americana participa do processo com o F-18E/F Super Hornet. Os outros dois finalistas são o francês Rafale, da Dassault, e o sueco Gripen NG, da Saab. A encomenda de 36 aviões, mais armamento, peças, componentes, documentação técnica, treinamento e custo da ampla tecnologia que o governo fixou como condicionante na seleção, tem valor estimada em cerca de R$ 10 bilhões - em regime de longo financiamento. A presidente Dilma Rousseff quer encerrar até dezembro a pendência que se arrasta por 16 anos. O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse em várias ocasiões que esperava revelar o resultado em junho. O mês, porém, tem apenas mais dois dias úteis.

A cooperação entre as duas maiores indústrias aeronáuticas das Américas é objetiva. Muilenburg e Luiz Carlos Aguiar, presidente da Embraer Defesa e Segurança (EDS), destacaram que o procedimento será mantido qualquer que seja o resultado da F-X2. O compromisso abrange o compartilhamento de conhecimento tecnológico e avaliação conjunta de mercados. É um bom modelo. A Boeing produz transportadores de carga e reabastecedores em voo há não menos de 45 anos. A Embraer é inovadora e imbatível em redução de custos.

Mais do que isso: segundo Aguiar, a análise dos mercados potenciais incluirá clientes que não haviam sido considerados nas projeções iniciais para o KC-390. É uma forma cuidadosa de dizer que os alvos passam a incluir países como a Itália e mesmo os Estados Unidos, excluídos anteriormente por disporem nos portfólios de sua indústria de produtos semelhantes. Não há como negar que, mesmo diante dessa circunstância, a chegada à mesa de discussões com a chancela dupla da Boeing e da Embraer faz diferença. A demanda mundial por aeronaves de médio porte, com capacidade na faixa das 24 toneladas, pode chegar a 700 unidades. Até agora, o KC-390 acumula pouco mais de 32 intenções de compra vindas de fora do Brasil e mais 28 que podem ser consideradas pedidos firmes, feitas pela Força Aérea Brasileira (FAB). O primeiro avião, será entregue em 2015. A EDS vai produzir o grande jato na fábrica de Gavião Peixoto, região de Araraquara, a 300 km de São Paulo.

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