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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Os deuses financeiros que falharam

Sob o céu quente da primavera, a economia global de 2007 parecia florir lindamente. A China e a Índia cresciam de modo explosivo. Até a inativa Alemanha dava sinais de um despertar econômico. E por que não? Os bancos centrais de toda parte elevavam e baixavam juros a curto prazo para estabilizar os velhos ciclos econômicos do capitalismo.''''Meta de inflação'''' era seu mantra: um índice na faixa de 1% a 2% era o tolerado.Com os preços estabilizados e o comércio livre mundial, a economia não parecia mais a ''''ciência maldita''''. Só o terrorismo geopolítico, a preservação ambiental, o abuso de drogas e o sexo inseguro dominavam nossas preocupações.Desde julho, o céu vem escurecendo. Os preços de imóveis, agora em queda, haviam disparado sob a pressão do crédito facilitado e do empréstimo alavancado. Fascinante! Mas, assim que a bolha imobiliária estourou e os preços despencaram, a alavancagem excessiva começou a provocar falências e perdas de imóveis graças a execuções hipotecárias.Numa peça shakespeariana, assim que um herói armado chega para consertar a situação, a maré da batalha se inverte. Foi assim quando o Banco Central Europeu (BCE) anunciou a injeção de centenas de bilhões de euros nos mercados de crédito para evitar um colapso.É uma vergonha Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), ficar para trás. Mas antes tarde do que nunca. O aumento das falências e calotes forçou injeções similares nos mercados de crédito por parte do Banco do Japão. O Banco do Canadá juntou-se a essas operações de resgate.Milton Friedman deve estar se revirando no túmulo. Ele havia aconselhado com firmeza: nunca, nunca salve pessoas insensatas que cometeram erros graves e saíram prejudicadas.E não faz muito tempo que Mervyn King, presidente do Banco da Inglaterra, proclamou: ''''Taxas de juros não são instrumento político para proteger credores das conseqüências de decisões imprudentes.'''' Ele poderá se arrepender dessas palavras se a crise piorar.Quaisquer que sejam as causas de grandes oscilações, as taxas de juros são, de fato, um instrumento político para tentar estabilizar a nação.Depois da quebra de outubro de 1929, Andrew Mellon, o multimilionário secretário do Tesouro do presidente Herbert Hoover, proclamou: ''''Liquidar! Liquidar! Liquidar!'''' - palavras que entraram para os anais da infâmia. Decisões políticas baseadas em fatos certamente podem fazer muito mais que isso.Quando Roma arde, Nero não pode dar atenção a mesquinharias, pois do contrário encorajará os cidadãos que brincaram com fogo a cometer imprudências no futuro.Primeiro as primeiras coisas. Ensinem lições depois. Corrijam mais tarde a má regulamentação que encorajou e permitiu empréstimos excessivamente alavancados.Por falar em lições a ser aprendidas, o que o distúrbio financeiro global nos ensina sobre nossos novos e maravilhosos fundos hedge, que já existem aos milhares? Como a roda, o alfabeto e a fermentação da uva, os fundos hedge saíram da cabeça dos acadêmicos.Eles reduziriam a volatilidade de nossos pecúlios e, ao mesmo tempo, impulsionariam nossos retornos ajustados ao risco a curto e longo prazos. Não importa que seus sábios administradores tenham recolhido até centenas de milhões de dólares em taxas durante os anos bons e ainda recebam dezenas de milhões nos anos ruins. O bom trabalhador é digno de seu salário, dizem as escrituras bíblicas.Até agora, este foi o verão da infelicidade para os administradores de fundos hedge. Como isso aconteceu? Eles usam novos instrumentos de engenharia financeira - opções de compra, venda e outras, swaps, etc.Observemos as novas ''''hipotecas securitizadas''''. Um banco não me empresta mais o dinheiro da hipoteca de minha casa. Ele arranja as dívidas em pacotes seguros, arriscados e mais arriscados. Vende a outras pessoas pacotes diferentes: promessas de retornos mais altos para os papéis de mais alto risco; rendimento mais baixo para os papéis mais seguros. Glória a esse método de calibrar o risco e espalhá-lo com eficácia por vários ombros diferentes.No entanto, esses novos instrumentos de compartilhamento de risco sem dúvida nos encorajam a aumentar nossa pirâmide de alavancagem duas vezes, quatro vezes... e talvez até mesmo 99 vezes. Minha neta pode equilibrar um pequeno taco de beisebol num dia sem vento. Mas Hércules, Isaac Newton e Albert Einstein, juntos, não podem equilibrar um taco do tamanho do Empire State. O colapso dramático da Long Term Capital Management, em 1998, nos ensinou essa difícil lição.Jornalistas me telefonam perguntando o que acontecerá com os EUA e o mundo nos próximos anos depois da recente explosão dos índices de volatilidade. Minha resposta é: ninguém sabe ao certo. Na melhor das hipóteses, há uma probabilidade de um terço de que ocorra (como Alan Greenspan acreditava) pelo menos uma recessão moderada em 2008.Há ainda um terço de probabilidade de que injeções de dinheiro dos BCs restaurem a estabilidade e os cenários otimistas de crescimento global.E há um terço de probabilidade de os mercados ricochetearem para cima e para baixo enquanto a inflação se mantém acima dos índices desejados pelos bancos centrais.Vários repórteres, após receber esses ensinamentos ambíguos, perguntam: professor Samuelson, de qual desses terços você gosta mais? Minha resposta segue a fórmula de Gertrude Stein segundo a qual ''''uma rosa ainda é uma rosa''''. Digo que nenhum terço é pior que outro. Por sua própria conta e risco, façam suas escolhas.* Paul A. Samuelson escreveu este artigo para o ''''International Herald Tribune ''''

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