Os dilemas de Belo Monte

Artigo[br][br]Povo brasileiro vai ser sócio em 49% e credor em até 85% do que não pode ser economicamente viável, a menos que a vida na região do Xingu pague a conta

Pedro Bara Neto, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Desde que o setor elétrico brasileiro retomou a velha prática de que o futuro passa por grandes projetos hidrelétricos na Planície Amazônica, autoridades têm abusado de um argumento simplório, onde um bom barramento é aquele cuja relação entre área inundada e capacidade de geração é a menor possível.

Sob o ponto de vista de segurança, para um sistema tão dependente da boa vontade dos céus, o argumento é falso. Quanto mais represas de grande porte com reservatórios relativamente pequenos forem construídas na Amazônia, mais inseguro será o sistema elétrico em relação a eventos climáticos extremos. Não só para garantir a "energia firme", mas também para transportá-la por milhares de quilômetros.

Sob o ponto de vista de mitigação, o argumento continua sendo simplório. Tome-se o caso de Belo Monte, cuja engenharia consiste em encurtar o caminho do Rio Xingu em um trecho conhecido como Volta Grande. Nessa arriscada empreita, haveria dois reservatórios. No primeiro, o rio se transformaria em lago por 60 km. Entre os prováveis inundados, o estudo de impacto ambiental fala em 20 mil pessoas. Para os prejudicados em sua atividade econômica, os números ainda não são conhecidos porque falta um cadastro socioeconômico.

No segundo, batizado de Reservatório dos Canais, residem os grandes riscos da obra. Para transformá-los em imensos canais de derivação seria preciso escavar dois igarapés e o próprio reservatório, antes de as águas chegarem à casa de força principal. No final dessas escavações sobraria, sabe-se lá onde, um totem equivalente de terra sobre um campo de futebol com 32 quilômetros de altura e um de rocha com 10 quilômetros. Além de inundar e prejudicar a vida do rio e o modo de vida das 120 mil pessoas que vivem na sua área de influência direta, Belo Monte também teria de secar parte do rio. Por quê?

Apesar de ser caudaloso onde a vazão máxima em um ano-ciclo (outubro a setembro) úmido (73-74) pode chegar a quase 30.000 m³/s, isto é, 12 piscinas olímpicas por segundo (abril-74), em um ano seco (98-99) essa vazão pode se reduzir em até 60%. Mesmo em um mesmo ano-ciclo as variações são enormes, em média, de 20 para 1, ou seja, menos de 5% de água em períodos secos.

Com um comportamento hidrológico tão instável, a terceira represa do mundo geraria apenas 40% do potencial. Enfim, quanto mais da escassa água passar pelo curso original menos sobrará para gerar energia.

Ante tudo isso, fica claro que estamos diante de dois dilemas.

O dilema de quem vive e depende do rio como meio de vida nos pedrais, nas cachoeiras e nas florestas mais preservadas das terras indígenas. Outro, o dilema do povo brasileiro e os bilhões de reais que vão ser colocados em um arriscado projeto cuja decisão de ir a leilão foi tomada sobre um estudo com inúmeras incertezas e insuficiências de informações. O povo brasileiro vai ser sócio em 49% e credor em até 85% do que não pode ser economicamente viável, a menos que a vida na Volta Grande do Xingu pague a conta.

É ENGENHEIRO, MESTRE PELA UNIV.STANFORD E LÍDER DA ESTRATÉGIA DE INFRAESTRUTURA DA WWF NA AMAZÔNIA

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