AFP PHOTO/OMAR TORRES 07/08/15
AFP PHOTO/OMAR TORRES 07/08/15

Os dois Méxicos

Com sua combinação de modernidade e pobreza, o México oferece lições para todos os mercados emergentes

O Estado de S. Paulo

25 Setembro 2015 | 18h19

"No estabelecimento do império da lei, os primeiros cinco séculos são sempre os mais difíceis." A frase espirituosa do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown pareceu, ao longo de boa parte dos últimos vinte anos, não apenas excessivamente rigorosa, como incorreta. Com a expansão da China, do comércio internacional e dos influxos de capital, para não mencionar o falatório sobre a nova classe média e "o bilhão de baixo" (como, em livro célebre, o economista Paul Collier se referiu ao contingente populacional que vive em países miseráveis, onde o desenvolvimento poderia ser promovido com a devida assistência internacional), foi fácil esquecer antigas verdades sobre como é difícil que nações pobres enriqueçam. Ganhou força a tese "cabeça fresca" de que as economias emergentes inevitavelmente trilhariam o mesmo caminho da prosperidade percorrido por países como Coreia do Sul e Taiwan.

Nos últimos meses, porém, o ânimo com essa visão do desenvolvimento murchou, acompanhando o arrefecimento nas taxas de crescimento das economias emergentes. A China, locomotiva a que muitas delas continuam atreladas, está perdendo embalo. Rússia, África do Sul e Brasil já engataram a marcha a ré. Suas moedas sofrem desvalorizações a cada novo recuo nos preços das commodities; e certamente se enfraqueceriam ainda mais se o Federal Reserve tivesse elevado os juros americanos. O comércio internacional vem crescendo em ritmo mais vagaroso que o PIB mundial, tendência que dificilmente será revertida no curto prazo. Diante disso, fica ainda mais evidente o caráter excepcional dos avanços realizados pelos tigres do Leste Asiático.

Um modelo de desenvolvimento mais realista é o México, país que se aproveitou de suas características positivas para criar zonas de modernidade, mas não foi capaz de erradicar nacionalmente a pobreza. Algumas das mazelas que os mexicanos enfrentam podem ser depositadas na conta de políticas específicas. Mas também são reflexo de dificuldades comuns a todas as nações emergentes.

Dois em um. O México vive um momento extremamente favorável. Sua economia está a reboque da economia americana, e não da chinesa: o volume de mercadorias que os mexicanos mandam semanalmente para o maior mercado consumidor do planeta supera o total de bens exportado ao longo de um ano inteiro para a China. O país, que já foi dependente das exportações de petróleo, hoje tem o maior e mais sofisticado parque industrial da América Latina e só perde para Alemanha, Japão e Coreia do Sul em exportações de automóveis. Há duas décadas a administração macroeconômica é impecavelmente ortodoxa. O governo abriu o setor petrolífero para o investimento privado e vem combatendo monopólios privados. Uma classe média vibrante prospera ao longo do corredor industrial que se estende da fronteira com os Estados Unidos à Cidade do México. O sistema político é fundamentalmente estável.

No entanto, apesar de décadas de reformas - às vezes tímidas, às vezes mais arrojadas - o México não foi capaz de encurtar a distância entre sua minoria globalizada e uma maioria que vive no que o presidente Enrique Peña Nieto admite ser uma situação de "atraso e pobreza". Desde 1994, quando o país ingressou no Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), a renda per capita vem crescendo a uma média anual de apenas 1%. Metade da população permanece na pobreza e nada menos que 25% corre o risco retornar à miséria. A criminalidade, a corrupção e os conflitos de interesse são generalizados entre os policiais, juízes e políticos que deveriam cuidar dos marginalizados.

A dualidade mexicana mostra que a adoção de políticas macroeconômicas adequadas, embora necessária, não é condição suficiente para promover o desenvolvimento de um país. As dificuldades ainda enfrentadas pelo México servem de ensinamento para as demais nações emergentes. A primeira lição, que é também a mais fácil de ser aprendida, diz respeito à centralidade da urbanização. Nas cidades, abrem-se oportunidades a que as pessoas não têm acesso em áreas rurais: na Ásia, por exemplo, todos os dias cerca de 120 mil pessoas migram do campo para a zona urbana. Mas, sem transporte, energia elétrica, saneamento básico e policiamento, as cidades não têm como realizar o seu potencial econômico. No México, os barrios, que concentram o grosso da população urbana, são dominados pela violência e criminalidade associadas ao tráfico de drogas. Na África do Sul, a falta de transporte público obriga os moradores das favelas a recorrer a dispendiosos serviços de vans para ir para o trabalho. No Paquistão e nas Filipinas, os moradores das cidades têm de conviver com apagões constantes. As favelas deveriam ser a prioridade de qualquer esforço modernizador. É nelas que vive a maioria das pessoas, e é nelas que os empregos, as escolas e a tecnologia estão mais à mão.

Estradas e ferrovias. A segunda lição se refere à importância da infraestrutura, e não apenas em zonas urbanas. Muitos dos pilares em que se assenta a moderna economia mexicana foram erguidos há um século, sob a forma de estradas e ferrovias que ligam o centro industrializado aos portos e à fronteira norte do país. Mas há grandes áreas que permanecem isoladas. A centralização excessiva dá margem a anomalias: os resorts litorâneos muitas vezes compram frutos do mar no mercado atacadista da Cidade do México, a centenas de quilômetros da costa. No entanto, ligar as diversas regiões de um país não é tarefa fácil. São necessários investidores dispostos a correr riscos e políticos inclinados a enfrentar o status quo. Na Índia, por exemplo, grandes projetos de infraestrutura esbarraram em conflitos de terra e na escassez de financiamento de longo prazo.

A terceira lição a ser aprendida com o México é a necessidade de trazer a economia informal para a formalidade. São pequenos negócios, sem registro nenhum, que empregam a maior parte da força de trabalho. E, no entanto, os bancos dão as costas para esses empreendedores e eles tampouco querem correr o risco de cair nas garras do fisco. Isso debilita a economia. Nos últimos 15 anos, enquanto a produtividade das maiores companhias mexicanas cresceu 5,8% ao ano, a das empresas de menor porte apresentou queda anual de 6,5%. O problema é tão disseminado nos changarros mexicanos - as barracas que fritam tacos, instaladas ao lado de todo e qualquer ponto de ônibus - quanto nas lojinhas e tendas da Índia, onde apenas 2% do varejo de artigos alimentícios e de mercearia pertence ao setor formal. As faturas eletrônicas, que deixam vestígios digitais para o fisco, e os aplicativos para smartphone das instituições bancárias, que tiram as pessoas pobres da "economia do dinheiro vivo", são duas alternativas promissoras.

Mas a onipresença da informalidade também assinala uma última lição, relacionada com os efeitos corrosivos da falta generalizada de confiança. Sem leis que sejam regularmente aplicadas, contratos que sejam respeitados, serviços públicos que façam valer a pena pagar impostos e um establishment político comprometido com o interesse nacional, a única instituição com que as pessoas realmente contam é a família. Como insinuou Gordon Brown, o estabelecimento de instituições que levem as pessoas a confiar em transações impessoais é, no mais das vezes, tarefa de várias gerações. Mas não é algo impossível de ser feito. Prova disso é a confiança de que atualmente gozam os bancos centrais do México e do Brasil, assim como as autoridades tributárias da África do Sul.

Nem o reformista mais ousado seria capaz de resolver todos esses problemas de uma hora para outra. Essa é a mensagem menos animadora transmitida pelos dois Méxicos: para a imensa maioria dos países, o caminho até a prosperidade é longo e árduo. Mas os sucessos do México mostram que ele existe. Ainda que os ganhos tenham de ser mensurados em décadas, a perseverança acaba recompensando.

©2015 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Da Economist.com, traduzido por Alexandre Hubner, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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