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Os ensaios da Juno

Uma jovem empresa de biotecnologia, com foco em terapias contra o câncer, promete riscos e recompensas

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2016 | 06h00

Para os padrões da indústria farmacêutica, a startup Juno Therapeutics, de Seattle, nos Estados Unidos, é uma empresa “café com leite”. Foi criada há três anos e ainda não tem nenhum medicamento aprovado pela agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos. Apesar disso, seu valor é estimado em US$ 2,8 bilhões, por causa de sua posição de vanguarda na área mais promissora em tratamentos de câncer: a imuno-oncologia.

O pioneirismo da Juno está relacionado às suas tentativas de dominar uma das partes mais importantes do sistema imunológico: a célula T. Os cientistas da empresa trabalham no desenvolvimento de uma terapia chamada CAR-T, que consiste na retirada de células T de um paciente com câncer e em sua modificação, com recursos de terapia gênica, a fim de que passem a reconhecer células cancerígenas.

Feito isso, elas são reintroduzidas no organismo do paciente, prontas para atacar. Ensaios clínicos realizados pela Juno mostram que o processo é capaz de promover remissões rápidas em cânceres hematológicos de pacientes para os quais não há outras opções de tratamento.

Motores. Startups de biotecnologia como a Juno chamam a atenção, pois são, na farmacologia mundial, o principal motor de inovação. Alexis Borisy, do fundo de capital de risco Third Rock Ventures, de Boston, observa que apenas 25% dos novos medicamentos lançados no mercado pelos laboratórios farmacêuticos são desenvolvidos internamente.

Os outros 75% são incorporados às suas linhas de produção por meio da aquisição de startups inovadoras. Os grandes laboratórios acompanham de perto os avanços feitos por essas pequenas empresas, identificando nelas sua principal fonte de crescimento futuro.

No segmento de biotecnologia, a Juno não é a única empresa que realiza testes com a terapia CAR-T. Com sede na Califórnia, a Kite Pharmaceuticals é uma concorrente importante. A gigante Novartis também investe no procedimento.

Mas a Juno se destaca das demais concorrentes. Segundo Mark Simon, da consultoria Torreya Partners, isso se deve ao fato de a empresa ser muito bem administrada e, até o momento, apresentar “dados extremamente positivos e instigantes no tratamento de alguns tumores”.

Se seus cientistas conseguirem fazer com que a CAR-T também possa ser utilizada no combate a outros tipos de câncer, a Juno contribuirá para revolucionar o tratamento da doença.

A empresa conta com uma equipe de pesquisadores experientes, alguns dos quais integram o corpo clínico do Fred Hutchinson Cancer Research Center, também de Seattle, que desempenhou papel decisivo para que a Juno captasse um volume extraordinário de recursos, fazendo dela uma das mais bem financiadas startups de biotecnologia da história.

E há outro fator importante que põe a Juno à frente das concorrentes: a empresa está desenvolvendo versões de “próxima geração” da CAR-T. Ainda não se sabe ao certo qual será a utilidade e lucratividade dessas técnicas, mas a expectativa é que seu aprimoramento produza terapias ainda mais eficientes.

Desconfiança. Apesar dos avanços da Juno, em 2015 os investidores ficaram um pouco ressabiados quando o laboratório Celgene, cujo valor de mercado chega a quase US$ 80 bilhões, pagou US$ 1 bilhão por uma colaboração de dez anos com a startup.

Não é difícil entender o motivo da desconfiança. No setor de biotecnologia, o risco é uma constante. Há sérias dúvidas de que as terapias CAR-T realmente possam vir a ser adotadas no tratamento de tumores sólidos.

Tampouco se sabe se a técnica alcançará resultados suficientemente duradouros para justificar seus efeitos colaterais ou mesmo os custos elevados que um tratamento de caráter tão individualizado implica.

As incertezas inerentes à biotecnologia se manifestaram com força em 7 de julho, quando um ensaio clínico que a Juno realiza com sua principal terapia, a JCAR015, teve de ser suspenso em virtude da morte de três pacientes. As ações da empresa levaram um tombo.

Mas seus pesquisadores conseguiram convencer as autoridades sanitárias de que o problema foi causado pelo acréscimo de uma droga quimioterápica ao tratamento e que a exclusão do medicamento evitaria novos óbitos. Seis dias depois, o ensaio foi retomado e as ações da Juno se recuperaram.

‘Corrida’. Mesmo assim, o contratempo adiará para 2018 a aprovação do primeiro produto da Juno, uma terapia para casos de leucemia linfoblástica aguda. Também impedirá que a empresa se torne a pioneira na comercialização da terapia CAR-T.

O feito agora provavelmente caberá à Kite Pharmaceuticals, que deve lançar sua versão até o fim deste ano. Segundo Hans Bishop, presidente-executivo e do conselho de administração da Juno, isso não tem importância.

No ramo da biotecnologia, alguns anos são como um “piscar de olhos”, diz ele. Pode até ser verdade, mas, em seus três primeiros anos de existência, a Juno já causou grande impacto.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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