Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Os fabulosos Wesley e Joesley

A delação dos reis da carne, donos do JBS, pode decretar o fim do governo de Michel Temer

O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2017 | 03h00

José Batista Sobrinho ajudou a construir Brasília. Em 1957, seu açougue fornecia carne para os refeitórios dos operários que trabalhavam na construção da capital modernista do Brasil. Agora, seus dois filhos mais novos, Wesley e Joesley, estão pondo o lugar abaixo. No comando da empresa fundada pelo pai, rebatizada de JBS em sua homenagem, os dois irmãos estão no centro de um escândalo capaz de fazer com que um presidente brasileiro deixe o cargo antes do tempo pela segunda vez em um ano.

A JBS é a maior exportadora de carne bovina do mundo. Suas receitas, que eram de R$ 3,9 bilhões em 2006, chegaram a R$ 170 bilhões no ano passado, impulsionadas pelo apetite da China e pelo entusiasmo do Brasil por suas “campeãs nacionais”. Entre 2007 e 2015, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) injetou mais de R$ 8 bilhões em aportes e empréstimos nas empresas dos irmãos Batista. A maior parte desses recursos foi utilizada na aquisição de concorrentes, entre as quais se incluem empresas americanas, como Swift e Pilgrim’s Pride. A holding da família, a J&F, também procurou se diversificar, e hoje é dona, entre outras, da Alpargatas, fabricante das sandálias Havaianas.

Enquanto a JBS comprava empresas, Wesley e Joesley compravam políticos. De R$ 20 milhões em 2006, as doações eleitorais declaradas da JBS passaram para quase R$ 400 milhões em 2014, quando a empresa foi a maior doadora da campanha. Nos últimos dez anos, os dois irmãos apoiaram financeiramente 1.829 candidatos a cargos eletivos. 

Com tanta generosidade, ajudaram a eleger um terço do Congresso atual. Na grande maioria dos casos, as doações eram ilegais. Wesley e Joesley confessaram que quase todos os recursos doados oficialmente, além dos milhões distribuídos por baixo do pano, representavam propinas pagas a políticos para que eles atuassem em favor dos interesses da J&F.

No ano passado, as empresas dos Batista foram incluídas em cinco investigações criminais. A mais recente delas tem como foco os negócios da J&F com o BNDES, que financiou a expansão do grupo a mando de políticos que depois teriam embolsado parte dos recursos disponibilizados pelo banco.

Para salvar suas empresas, e a si mesmos, Wesley e Joesley propuseram um acordo de delação premiada aos procuradores que investigam o metastático escândalo de corrupção centrado na Petrobrás. Foi o melhor negócio que a dupla fez até hoje. Em troca de provas de crimes cometidos por importantes figuras políticas – incluindo, possivelmente, o presidente Michel Temer – os dois obtiveram imunidade quase total. Ao contrário de Marcelo Odebrecht, ex-presidente do grupo Odebrecht, não passarão nem um dia na cadeia ou em prisão domiciliar. Livre para deixar o Brasil, Joesley já se mudou para o suntuoso apartamento que tem em Nova York. Ele e o irmão terão de pagar uma multa de R$ 110 milhões cada um – valor que não deve doer muito em seus bolsos bilionários.

Perigos. Os reis da carne não estão totalmente a salvo. É possível que a JBS venha a ser investigada por corrupção nos EUA; e os americanos que investiram em títulos da empresa podem processá-la judicialmente. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga a JBS pela prática do crime de “insider trading”. 

Semanas antes dos detalhes da delação dos irmãos Batista vazarem para a imprensa, em 17 de maio, os controladores da JBS venderam mais de R$ 300 milhões em ações da empresa; e, no mesmo dia, horas antes da notícia cair como uma bomba no mercado, a J&F comprou grande quantidade de dólares. Wesley e Joesley negam ter manipulado o mercado. Aparentemente, foram abençoados com o mesmo tino comercial do pai.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.