Os Farias Briters

A agenda da retomada não pode ser pautada somente por um dos extremos

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2020 | 04h00

Quanto ganham, como é o seu jeito de viver? Um terço deles ganha o Bolsa Família. Mais da metade vive sem esgoto, mais de 20% vive sem coleta de lixo, cerca de 10% vive sem banheiro. Eles são os moradores de Farias Brito, município de 19 mil habitantes no Ceará. Ou os Farias Briters, para fazer um paralelo com os famosos Faria Limers.

Os Faria Limers são os que povoam a Faria Lima. O conglomerado ao redor da avenida reuniria uma população um pouco inferior à do município cearense, 16 mil. Os Faria Limers foram capa da Veja São Paulo: são os profissionais bem remunerados, até superstars, que trabalham nas empresas altamente produtivas do local. 

Vão dos grandes bancos nacionais e estrangeiros às Big Tech (Google, Facebook), passando por escritórios de advocacia e assets do mercado financeiro. A reportagem viralizou na internet, que aproveitou para fazer memes com os hábitos de trabalho e de consumo dos invejados Faria Limers, early adopters e entusiastas de itens como patinetes elétricos, coletes de náilon e meias coloridas. A expressão se difundiu: o próprio Estado a usou para se referir a Guedes e Doria indo para Davos.

O contraste dos Faria Limers − os mais bem incluídos no mercado de trabalho e na sociedade de consumo – e os Farias Briters, os excluídos, é para se ter em mente no momento em que o País ensaia uma recuperação mais forte. A desigualdade continuará um gigantesco desafio na retomada, e a agenda não pode ser pautada somente por um dos extremos. 

O Caged registra novas vagas formais criadas em Farias Brito no ano que passou: 30, puxadas pelos serventes de obra. Não recuperou, portanto, as 73 carteiras assinadas perdidas entre 2015 e 2018. Os números podem parecer muito baixos, e é porque são: no ano do Pibão de 2010, a informalidade alcançava 80% dos Farias Briters com ocupação. Aquele censo registrava ainda 70% da população vulnerável à pobreza.

O PIB per capita está abaixo do salário mínimo: o Farias Briter vive em média com R$ 30 por dia (o tíquete de almoço na Faria Lima chega a R$ 110 segundo a Abrasel). A mortalidade infantil em Farias Brito é igual à da Suécia, há 50 anos. O IDH equivale ao da Botswana. A maior cidade vizinha, Juazeiro do Norte, tem taxa de homicídio quatro vezes maior que a de São Paulo: 55 por 100 mil habitantes, assídua na lista do Mapa da Violência.

As crianças são um quarto da população do município cearense (o dobro da proporção na subprefeitura de Pinheiros, que abriga a Faria Lima). As transferências da Seguridade Social, concentradas nos mais velhos e no mercado de trabalho formal, pouco chegam ali. Os benefícios do INSS são predominantemente os rurais (72%) e o BPC (12%). Por isso, Farias Brito não é afetada pela reforma da Previdência (somente 6% são aposentadorias por tempo de contribuição). Com a reforma, porém, o espaço fiscal para benefícios como o Bolsa Família será menos limitado.

A reforma tributária também seria importante. Por conta de um sistema regressivo que tributa pesadamente o consumo, o Farias Briter paga mais imposto que o Faria Limer – em proporção à sua renda. 

Há esperança. Se estudos como os de Alexandre Rands mostram que a raiz da desigualdade regional brasileira é a desigualdade na educação, é ótimo perceber que Farias Brito segue o exemplo de Sobral e da excelente escola cearense de políticas públicas. 

Embora esteja entre os 30% municípios mais pobres do Brasil, Farias Brito é top 10% no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). O progresso aparece ano a ano: na década que passou todos os índices passaram a superar os da rede pública do município de São Paulo.

O Congresso se movimenta. Duas propostas poderiam elevar substancialmente as transferências às crianças pobres de Farias Brito, com baixo ou nenhum impacto fiscal. O Senado já aprovou no fim do ano o Benefício Universal Infantil, e a Câmara discute a Agenda para o Desenvolvimento Social, que fortalece o Bolsa Família. Os dois projetos são focados nas crianças na primeira infância e na extrema pobreza. Elas não escolheram onde nascer: poderiam ter sido filhas de Faria Limers, mas a loteria da vida as colocou em famílias Farias Briters. 

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(O colunista agradece o apoio de Dércio Nonato Chaves Assis, do fantástico time do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará, o isentando de quaisquer equívoco.)

* DOUTOR EM ECONOMIA 

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