Os gargalos das viagens corporativas

O turismo de negócios movimenta, de acordo com recentes estatísticas do setor, cerca de R$ 20 bilhões por ano de forma direta, ou seja, através da venda de passagens aéreas, reservas de hotéis e locação de veículos. Se computássemos todos os impactos indiretos na economia, este valor mais do que dobraria, uma vez que os viajantes corporativos utilizam os aeroportos, frequentam os restaurantes, fazem uso de táxis e ônibus, entre outros serviços.

André Carvalhal, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2011 | 00h00

Em geral, as viagens corporativas estão entre as cinco maiores despesas de uma companhia. Mas, apesar da relevância nas contas da empresa, muitas vezes essa área não é controlada com a devida atenção, tornando-se terreno fértil para o desperdício e a ineficiência.

Há ainda um equívoco muito comum na maior parte das empresas: viagens são tratadas meramente como despesas e, ao primeiro sinal de crise, entram na lista dos custos para se reduzir. De acordo com um estudo da "Oxford Economics", realizado com mais de 500 companhias, para cada US$ 1,00 gasto em viagens, a empresa traz US$ 12,50 de retorno.

Racionalizar os gastos na tentativa de transformar as viagens corporativas em alavancas estratégicas é o principal objetivo das chamadas TMCs (Travel Management Companies), empresas especializadas na gestão desse tipo de despesas.

O trabalho dessas companhias vai muito além de emitir bilhetes e reservar hotéis para seus clientes. Elas buscam as melhores alternativas para que as empresas façam seus negócios de forma mais econômica e eficaz, mesmo que isto represente não viajar, e sim fazer uso da atual tecnologia de telepresença ou videoconferência.

Saber onde e como realizar um evento (interno ou para clientes) é outra variável a ser gerenciada pelas TMCs. Elas também podem auxiliar as empresas a localizar e ajudar seus executivos em momentos de crise, tais como terremotos, atentados, problemas meteorológicos e epidemias. Essa competência tem sido cada vez mais vista pelo mercado como um valor agregado.

Mas o que mais importa para as companhias é como poder viajar mais e gastar menos. Esta pergunta do "milhão" pode ser respondida com a aplicação de uma política de viagens bem elaborada, atrelada à cultura e à realidade das empresas, além de uma gestão dedicada, normalmente a cargo de um Travel Manager, que tem como objetivo fazer cumprir a política e buscar as melhores negociações possíveis com todos os principais fornecedores.

Problemas brasileiros. Porém, esta fórmula tão bem difundida e de reconhecido sucesso poderá não funcionar no curto prazo para as empresas brasileiras. Temos ao menos três importantes desafios a serem superados no curtíssimo prazo. Caso contrário, nem os melhores negociadores conseguirão trazer economias para suas empresas.

Não é novidade para ninguém o atual estado de nossa malha aeroportuária: saturada, envelhecida e obsoleta. O que é alarmante é que as providências estão demorando muito e a demanda não para de crescer. Os principais aeroportos do país não têm mais slots disponíveis e os pátios já estão lotados.

Outro ponto: atualmente é um grande desafio encontrar quartos de hotéis durante a semana em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Existem alguns casos de executivos dormindo em municípios vizinhos e até em motéis, por falta de alternativas.

O terceiro e último desafio: a oferta de emprego no setor é maior do que o número de pessoas que busca por vagas. A consequência imediata é a elevação de salários e também um maior investimento em benefícios dos colaboradores, treinamentos qualificados e ferramentas e processos de padronização para manter o bom atendimento.

Este cenário faz pressão direta também nos custos das TMCs. Com isso, as agências de viagens corporativas precisam dividir esse aumento nas despesas com os clientes, que fazem questão de receber as melhores orientações para otimizar tempo e elevar a produtividade

Oportunidade. Mais do que problemas, os pontos abordados neste artigo devem ser vistos como uma grande oportunidade. E, para aproveitá-la, é preciso que nos mobilizemos e que possamos fazer com que nosso poder público e nossa iniciativa privada entendam que, se o Brasil quer se manter como um país de futuro promissor, teremos que atacar estes problemas hoje.

Esperar pela Copa do Mundo de 2014 e pelas Olimpíadas de 2016 é apenas colocar a "sujeira para debaixo do tapete".

PRESIDENTE DA CARLSON WAGONLIT TRAVEL NO BRASIL

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