Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

Os governos são responsáveis por manter percepção de estabilidade da população

É preciso deixar claro quais os rumos do país, seja ele qual for, para definir prioridades de todo governo

Henrique Meirelles, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2022 | 04h00

Um dos papéis centrais e mais importantes dos governos é gerenciar expectativas. Os anos mais recentes podem ter apagado isso da memória dos brasileiros, mas cabe à administração central evitar solavancos, tomar atitudes com firmeza, seriedade e serenidade, sempre com um objetivo claro à frente. Em resumo, gerar as condições necessárias para que consumidores, empresários, investidores, todos tenham uma percepção de segurança e previsibilidade sobre os rumos do país. 

A estabilidade é um ativo essencial para garantir investimentos e levar ao crescimento. Ninguém faz negócios, se arrisca em empreendimentos – seja abrir uma padaria ou investir bilhões em uma concessão de rodovia – sem uma boa dose de segurança e de confiança nos rumos do País. Não há melhor forma de proporcionar isso do que ter prioridades claras em política econômica, zelar continuamente pela estabilidade fiscal, demonstrar compromisso com o controle de gastos e da inflação.

Não é preciso voltar muito no tempo para verificar a eficácia desta fórmula. Quando assumi o Banco Central, em 2003, havia grande insegurança na economia sobre o que seria o governo Lula. Uma das primeiras coisas que fizemos foi exatamente, na primeira e na segunda reuniões do Copom, aumentar a taxa Selic para controlar a demanda – e, com a finalidade principal: dar a sinalização clara de uma política monetária rigorosa aos agentes econômicos, mostrando que o BC agiria de forma independente. Isso começou a ter efeito positivo sobre as expectativas. Posteriormente, uma das coisas que foi feita com cuidado e precisão nas atas do Copom, foi dar uma sinalização da forma mais clara possível sobre os próximos passos, de maneira a manter a previsibilidade da economia. Os resultados foram positivos: não só a inflação convergiu para a meta, fixada em 8,5% em 2003, 5% em 2004, e 4,5% em 2005. De 2005 a 2010, a inflação média foi 4,5%, exatamente na meta. 

A previsibilidade e a formação de expectativas foram fatores importantes desta política monetária bem-sucedida. Durante meus oito anos no BC, o Brasil cresceu 4%, em média.

O Brasil começa a entrar na fase mais aguda da campanha eleitoral. É normal neste período haver muito falatório, especulação e agitação em torno da perspectiva de poder. Caberia ao governo não se aventurar em medidas improvisadas, criadas na última hora, em busca de benefícios eleitorais de curto prazo, em detrimento de efeitos negativos de longo prazo nas contas públicas. É preciso ter consciência de que não há perdão na economia: as atitudes erradas deixarão marcas e cobrarão um preço alto no futuro próximo.

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