Os gringos que representam o Brasil na Forbes

Donos de gráfica online no País, Mate Pencz e Florian Hagenbuch estão na lista '30 under 30'

Marina Gazzoni , O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2015 | 02h06

O alemão Florian Hagenbuch, de 27 anos, e o húngaro Mate Pencz, de 28, estão entre os estrangeiros que se mudaram para o Brasil nos últimos anos para abrir uma startup de tecnologia. Assim como tantos outros, chegaram com dinheiro de investidores estrangeiros para abrir um e-commerce de nicho - no caso deles, a Printi, de serviços gráficos.

Os dois amigos se destacaram e entraram neste mês na lista "30 Under 30" da revista Forbes, que indica os jovens mais promissores com menos de 30 anos no ramo industrial. Embora sejam gringos, eles são donos da única empresa do País citada na lista, onde não aparecem empresários brasileiros.

A ideia de empreender nasceu quando Mate e Florian trabalhavam no mercado financeiro em Londres em 2010. Eles estavam insatisfeitos com as amarras de trabalhar em grandes empresas e pensavam em montar um negócio em algum lugar do mundo. "Na época, a Europa estava em crise e o Brasil estava bombando. O Cristo Redentor decolava na capa da Economist", lembra Mate.

A favor do Brasil também pesava o fato de que Florian conhecia muito bem o País. Seus pais se mudaram para São Paulo quando ele tinha quatro anos e ele cresceu na capital paulista. A família de Florian também inspirou os dois jovens a abrir um negócio ligado à indústria gráfica. Seu pai foi executivo da alemã Heidelberg, fabricante de máquinas gráficas. A Printi vende o serviço de impressão de produtos como cartões de visita e folders pela internet e contrata gráficas terceirizadas para imprimir os pedidos.

Para tirar a ideia do papel, os dois jovens acionaram uma extensa rede de contatos formada nas universidades americanas - Florian estudou em Wharton e Mate em Harvard-, no Vale do Silício e até mesmo com os "gringos" que abriram startups no Brasil. Logo que chegaram, Mate e Florian se mudaram para uma casa na região da Avenida Faria Lima, compartilhada com cerca de 10 estrangeiros, a maioria alemães. Moraram lá, por exemplo, fundadores de empresas como Dafiti, BrandsClub e Oppa.

A mesma lógica que usaram para arrumar um lugar para morar valeu para começar o negócio. O primeiro endereço da Printi era o escritório da Baby.com, um e-commerce de artigos infantis também criado por estrangeiros no Brasil. "Pegamos uma mesa e começamos a trabalhar", conta Mate. Os primeiros pedidos da Printi vieram dos próprios amigos, que tinham outras startups e precisavam de cartões de visitas.

O setor de tecnologia foi um dos que mais atraiu os jovens empresários para a criação do próprio negócio. "A inclusão do empreendedorismo no currículo das universidades e os exemplos de sucesso têm tornado a opção mais atraente do que a carreira em uma multinacional", disse Renato Fonseca, gerente do Sebrae-SP.

Jovens. Os brasileiros com maior propensão empreendedora estão na faixa entre 24 e 35 anos, segundo dados da pesquisa Global Entrepreneurship Report (GEM), feita pelo Sebrae, Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ) e Fundação Getúlio Vargas (FGV). Cerca de 21,9% dos jovens nesta idade são empreendedores. "A falta de experiência aumenta a propensão ao risco. Isso às vezes é ruim, mas pode viabilizar a construção de empresas inovadoras", disse Fonseca.

Em meio à ânsia de tentar criar a próxima empresa bilionária de tecnologia, muitos empresários gastaram sem dó os recursos captados com investidores, já contando com novas rodadas de capitalização. Florian e Mate resolveram poupar. A empresa sobreviveu dois anos com o aporte inicial feito pelos investidores anjos, de R$ 1,2 milhão, e com o caixa gerado pela empresa. Em 2014, a Printi faturou R$ 12 milhões. "Nós somos mais conservadores. Tínhamos pavor de fracassar no primeiro negócio", lembra Florian. "As pessoas que dizem que o fracasso faz parte da vida do empresário nunca faliram no Brasil. Aqui se você quebrar uma vez, a sua reputação está acabada."

O perfil mais conservador e focado na execução do projeto colocou os jovens dentro da rede de empreendedorismo Endeavor no ano passado. "É um diferencial. Muitos empreendedores têm uma boa ideia, mas não sabem executá-la", disse Marina Turner, gestora de conta da Endeavor. Segundo ela, a busca da inovação em um setor tradicional, como o gráfico, foi outro ponto a favor.

A indústria gráfica vem perdendo receita - a produção caiu 1,7% em 2014, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf). A queda reflete fatores como a desaceleração da economia, a digitalização e a competição com importados, explica o vice-presidente da Abigraf, Fabio Mortara. Para ele, o e-commerce pode ajudar as gráficas a captar mais clientes e reduzir a ociosidade das máquinas. "Em 2006, 30% das 40 mil gráficas dos EUA faziam vendas online. Hoje temos no máximo 30 gráficas online no Brasil."

Verticalização. A Printi está investindo em uma gráfica própria para tentar elevar sua margem. Em 2014, os donos da Printi venderam uma participação para a Vistaprint por US$ 25 milhões, companhia que tem gráficas próprias, e-commerce, e capital aberto na bolsa de valores Nasdaq. "Eles têm mais a agregar à empresa do que um sócio que só vai entrar com o cheque", disse Mate. A VistaPrint tem opção de compra na Printi e pode ser a saída no futuro para Mate e Florian no seu primeiro negócio.

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