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Os hábitos irritantes dos chefões

Uma questão para pensar: pessoas altamente eficientes costumam castigar indefesos subordinados com suas idiossincrasia

The Economist

28 Setembro 2018 | 23h05

Uma das funções dos colunistas de economia é contar em detalhes a vida de titãs corporativos, levando os leitores se maravilharem, por exemplo, com a energia de um Tim Cook. O chefão da Apple levanta-se às 3h45 para ler e responder e-mails. Mas pensem um pouco em seus assessores, cujos iPhones começam a zumbir às 4h. Alguns talvez tenham a ousadia de continuar cochilando durante o telefonema, mas a maioria vai se sentir culpada se não responder imediatamente. Pessoas altamente eficientes costumam castigar indefesos subordinados com suas idiossincrasias. 

Talvez um dos objetivos das biografias e artigos elogiosos seja o de induzir leitores a imitar os métodos de trabalho de líderes. Ninguém, porém vai entrar na lista dos “500 maiores” da S&P apenas por seguir tais exemplos. Tudo que este colunista conseguiria levantando-se às 3h35 seria levar a esposa a pedir o divórcio.

Um perigo particular é que os exemplos supostamente inspiradores de altos executivos estejam fora do alcance da maioria. Jeff Bezos, fundador da Amazon, disse recentemente numa conferência que gosta de se levantar sem pressa, ler um jornal e tomar o café da manhã com os filhos. Seu primeiro compromisso é sempre às 10h. Isso tudo parece relaxante, mas é uma opção difícil para muitos de seus funcionários. Os da Amazon britânica têm dois horários de trabalho possíveis: das 7h às 17h30 ou das 5h45 às 16h15, segundo o sindicato GMB. Ambos os horários impossibilitam o desjejum em família. 

Richard Branson, fundador do Virgin Group, declarou recentemente que poucas coisas o irritam, e gente que se atrasa é uma delas. Usuários da Virgin Trains, o serviço de trens do grupo, foram imediatamente à mídia social para lembrar que eles também gostam das coisas no horário, mas um em cada cinco trens da companhia se atrasou nos últimos 12 meses. É fácil ser pontual quando não se precisa deixar os filhos na escola ou enfrentar o transporte público. Altos executivos, sejam homens ou mulheres, estão cercados de pessoas cuja função é ajudá-los – de assessores executivos e motoristas, no trabalho, a faxineiros e cozinheiros, em casa. 

Executivos também frequentam ginásios esportivos pela manhã. De novo, pais que trabalham duro e têm filhos para criar podem não ter tempo ou dinheiro para fazer isso. Mesmo um gerente bem pago que consiga frequentar uma academia está sempre sujeito a ter sua caminhada na esteira interrompida por um telefonema ou mensagem de um superior. 

Tim Cook provavelmente seria igualmente eficiente se acordasse às 5h45. Ele deve ter outras qualidades além de trabalhar duro e de um inusual ritmo circadiano (adaptação do organismo ao dia e à noite) que expliquem seu êxito. Afinal, se longas horas de trabalho fossem a chave do sucesso, pessoas que têm dois empregos, ou enfermeiras que fazem o turno da noite em prontos-socorros, estariam nadando em dinheiro. Ronald Reagan tornou-se presidente apesar de um seu famoso gracejo: “Dizem que trabalho duro nunca matou ninguém, mas para que arriscar?”. 

Histórias de executivos bem-sucedidos envolvem exibição de virtudes. Nenhum chefe gosta de admitir que nas noites de sexta-feira come pizza e assiste a Game of Thrones. Eles preferem dizer que aproveitam a sexta para meditar ou ler um bom livro. Muitos perfis de executivos assemelham-se às “vidas de santos”, com os objetos das hagiografias modernas recebendo ações em lugar de pontos para canonização.

Do jeito deles

Algumas manias de executivos podem ser inofensivas, como a insistência de Steve Jobs e Mark Zuckerberg em usar sempre o mesmo tipo de roupa. Mas o perigo é que certas excentricidades e opiniões de líderes se tornem tão incorporadas a sua história a ponto de prejudicá-los. Henry Ford obteve grande sucesso com o Modelo T, mas viu seu prodígio de vendas ficar para trás quando o carro se tornou antiquado, e Ford se recusou a mudá-lo. Também a birra de Ford com vendas a prazo amarrou sua empresa no momento em que outros fabricantes começaram a vender a prestação. E o excesso de franqueza de Gerald Ratner o arruinou quando disse que sua rede de joalherias vendia “porcarias”. 

Hobbies também podem ser destrutivos. Quando o banco de investimentos Bear Starns estava em vias de quebrar, Jimmy Cayne, seu principal executivo, curtia sua paixão por bridge em Nashville, não sendo alcançado por telefonemas e e-mails. 

O perigo de se imitar altos executivos é que o que faz seus hábitos virarem moda são geralmente seus grandes lucros e o bom desempenho de suas ações – e isso pode ser efêmero. Caprichos que parecem ousados e inovadores em épocas favoráveis podem redundar em fracasso em tempos bicudos. Perguntem aos acionistas da Tesla. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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