Os idos de março

O que esperar da negociação entre EUA e China, cujo desfecho deveria ter ocorrido no início do mês

ROBERTO FENDT, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2019 | 05h00

A tensão no relacionamento entre os EUA e a China tem duas origens, uma de natureza comercial e outra, a percepção norte-americana de que a ascensão da China é uma crescente ameaça à sua segurança.

Os EUA têm o maior déficit comercial do planeta. Não é de hoje: remonta a 1975. Em 2018, o déficit na balança comercial foi de US$ 891 bilhões, e continua aumentando.

A administração Trump tem privilegiado uma discussão bilateral com alguns de seus parceiros para a redução do déficit. É o caso da China. Contudo, o problema não reside nos déficits bilaterais. Os EUA têm déficit com mais de cem países. No fundo, o seu déficit global decorre do fato de consumirem, investirem e terem gastos de governo que superam seu PIB. Portanto, “absorvem” recursos de terceiros países para manter seu nível de gastos. Alguém tem de financiar esse excesso de gastos.

Na China ocorre o inverso: o país gasta menos que o permitido por seu PIB, mercê da enorme poupança do país. O excesso de poupança chinesa financia principalmente o excesso de gastos dos americanos.

Alguém diria que resolver esse imbróglio depende de os EUA aumentarem sua poupança e de os chineses aumentarem o seu consumo. Não é o que está acontecendo do lado americano, especialmente pela redução da carga tributária promovida pela gestão Trump.

O resultado é melhor do lado chinês, já que agora o crescimento estará cada vez mais calcado na expansão do consumo. Mas isso leva tempo.

Se é difícil de encolher o déficit comercial bilateral, o que dizer da percepção americana de que a ascensão da China coloca em jogo sua segurança nacional?

Estaríamos diante do que Graham Allison chamou de “armadilha de Tucídides”, a perigosa dinâmica histórica que ocorre quando uma potência ascendente ameaça substituir uma potência estabelecida – aquela combinação mortal do cálculo com a emoção que, no passar dos anos, pode tornar uma saudável rivalidade em antagonismo?

Quem expressa da maneira mais cristalina essa percepção de crescente antagonismo é o documento Avaliação Mundial das Ameaças da Comunidade de Inteligência dos EUA (Worldwide Threat Assessment of the US Intelligence Community), publicado em janeiro deste ano.

Ali se lê: “Ameaças à segurança nacional dos EUA se expandirão e se diversificarão no próximo ano, dirigidas em parte pela China e pela Rússia. A China representa uma ameaça persistente de cyber espionagem e uma crescente ameaça de ataque ao cerne de nossos sistemas militares e de infraestrutura crítica”.

Os rápidos avanços tecnológicos da China estão, portanto, no cerne da tensão. Para os americanos, o plano Made in China 2025 para o desenvolvimento de capacitação nas tecnologias do futuro baseia-se, de um lado, em incentivos e subsídios e, de outro, na transferência compulsória de tecnologia e infringência de direitos de propriedade intelectual.

A visão chinesa é distinta: a política industrial chinesa buscaria a autossuficiência tecnológica em muitos setores para tornar mais competitiva sua indústria, e não a dominação dos mercados globais.

O que esperar nas negociações em curso entre os dois países, cujo desfecho deveria ter ocorrido em 1.º de março? Um acordo de comércio é possível, com a China abrindo pontualmente seu mercado para produtos americanos ao lado de um compromisso de maior proteção aos direitos de propriedade intelectual. Mas não há como esperar qualquer concessão com respeito ao desmantelamento da política industrial chinesa.

Se assim for, a rivalidade entre os dois países persistirá, até que as duas economias passem a perceber sua interdependência e que os EUA aumentem sua poupança e a China reduza a sua.

ECONOMISTA

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