Os idos de setembro

A crise do subprime americana e sua superação nos ensinaram que, em situações atípicas, medidas heterodoxas são indispensáveis

ROBERTO FENDT*, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

No dia 11 deste mês, transcorreram 17 anos do atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center e ao Pentágono. E, no próximo dia 15, transcorrerão dez anos da falência do banco de investimentos Lehman Brothers, data-símbolo da pior crise financeira global desde a Grande Depressão de 1929-1933. Dois eventos ocorridos a mais de 7 mil quilômetros de São Paulo e cujos efeitos se fizeram sentir no Brasil, de imediato, e que perduram até hoje.

As consequências imediatas mais palpáveis dos ataques terroristas foram as 2.975 mortes, número superior ao de mortes ocorridas no ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941. A essas mortes se juntou um grande número de feridos.

Na economia, os ataques produziram o aprofundamento da recessão americana iniciada em março de 2001. O PIB havia se contraído em 1,1% no primeiro trimestre daquele ano, mas havia recuperado 2,1% no segundo trimestre. Os ataques provocaram uma nova queda no PIB, de 1,3%, estendendo a recessão de março a novembro de 2001. Não coincidentemente, por contágio, no Brasil a recessão durou do segundo ao quarto trimestres daquele ano, ocorrendo em sucessão à recessão americana. Nos três trimestres de recessão aqui, perdemos 1,2% do PIB.

Decorreu uma década dos eventos calamitosos que chocaram o sistema financeiro global, incluindo a nacionalização britânica do banco Northern Rock em fevereiro de 2008, a compra do banco de investimentos Bear Stearns pelo banco JPMorgan Chase em março de 2008 e a falência do banco de investimentos Lehman Brothers em setembro de 2008. Da crise resultou a mais longa recessão americana no pós-guerra; por contágio, a crise afetou um grande número de países, gerando substancial aumento no desemprego.

Medidas heterodoxas praticadas pelo Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) e pelo Tesouro americano a partir de 2008 impediram a quebra do sistema bancário do país, que certamente arrastaria consigo os sistemas financeiros em escala global. Aprendeu-se muito com os erros cometidos na condução da política monetária em 1929-1933, quando o Federal Reserve agravou uma recessão já em curso na Grande Depressão. Em 2008, o Federal Reserve promoveu a injeção de liquidez na economia, evitando a quebra dos sistemas financeiros, americano e global.

Como em todas as crises, há muitos fatores causais interrelacionados. Recente painel de especialistas convidados pela Chicago Booth School of Business a dar notas a 12 possíveis causas da crise atribuíram os maiores pesos a falhas na regulação e supervisão do sistema financeiro; à subestimação dos riscos envolvidos na engenharia financeira; e a fraudes e incentivos perversos no mercado de hipotecas. Subjacente a esses fatores secundários, não pode ser ignorado que em todas as crises sempre houve uma bolha de crédito que, ao romper-se, provocou as crises.

Quaisquer que tenham sido as principais causas da crise, ela chegou com violência ao Brasil. O PIB medido no quarto trimestre de 2008 ficou 5% abaixo do PIB potencial, mas a recuperação da economia foi rápida. Antes do quarto trimestre de 2009 o PIB já havia retornado ao seu potencial.

Se serviu para alguma coisa, a crise do subprime americana e sua superação nos ensinaram que, em situações atípicas, medidas heterodoxas são indispensáveis. Como o veículo de transmissão da crise ao Brasil foi a brusca interrupção das linhas de crédito externas aos bancos brasileiros, lançamos mão dos bancos estatais para suprir a lacuna provocada pela iliquidez do sistema bancário.

Isso não se aplica à Grande Recessão brasileira iniciada em janeiro de 2014. Ela nada teve que ver com choques vindos do exterior. Sua causa tem nome: “Nova Matriz Econômica”.

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ECONOMISTA

O colunista Celso Ming está em férias

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