Os idosos chamados a sustentar filhos e netos
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Os idosos chamados a sustentar filhos e netos

Com o agravamento da economia, os idosos têm sido os principais provedores de renda de diversos lares brasileiros, mesmo sendo um dos grupos sociais mais vulneráveis ao novo coronavírus

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 08h00

Os escândalos que envolvem as práticas da Prevent Senior, principal plano de saúde destinado a idosos, ajudam a chamar a atenção para o acúmulo de problemas que atingiu esse segmento da população nestes quase dois anos de pandemia.

Os idosos já são naturalmente mais vulneráveis aos ataques da covid-19 porque enfrentam enfraquecimento no seu sistema imunológico. No primeiro ano de pandemia, três em cada quatro óbitos por covid-19 no Brasil aconteceram em pessoas com mais de 60 anos, conforme apontaram dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

E há também a pressão das questões econômicas. A pesquisa Desigualdade de Impactos Trabalhistas na Pandemia, organizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que a renda média individual do trabalho da população idosa caiu 14,2% em relação ao nível registrado no fim de 2019. Enquanto isso, a renda individual média do brasileiro, entre informais, desempregados e inativos, foi reduzida em 9,4%


Mas há agravantes. O desemprego e a perda de renda, que atingiram especialmente os mais jovens das classes médias, conjunto social que não tem direito ao auxílio emergencial, obrigaram os mais velhos a empenhar boa parte da aposentadoria e das reservas pessoais formadas após os anos de trabalho no reforço do orçamento de filhos e netos. É fator que conspira contra a segurança no futuro e os obriga a novas renúncias com que não contavam, como o de ter de retornar a novas formas de atividade e a de adiar projetos de vida.

O professor Marcelo Neri, diretor do FGV Social, lembra que o Brasil possui um sistema de proteção social para idosos (aposentados e pensionistas) relativamente robusto que assegura pela Constituição certa manutenção da renda pessoal. É esse fator que, em parte, explica o fenômeno das famílias estendidas no País e a dependência delas da renda dos idosos. Estes são responsáveis por mais da metade dos rendimentos da família em 20,6% dos lares brasileiros e a principal fonte de renda em 18,1% dos domicílios, conforme aponta Nota Técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) baseada em dados da PNAD Contínua.

“A pandemia impôs novos desafios para os idosos, sobretudo na área da saúde, mas os idosos brasileiros assistidos estão bem situados nas faixas de renda: eles são 15% das faixas mais altas e correspondem a 1,5% das pessoas nas faixas mais baixas. As principais deficiências [para o grupo da terceira idade] estão no nível de escolaridade e na inclusão digital”, explica o pesquisador. 

Os comunicados das autoridades dão a impressão de que o segmento contou com mais cuidados durante a pandemia. Mas, como observa Neri, os idosos não foram o grupo social mais beneficiado pelas medidas de reforço de renda: “Os idosos são visíveis aos olhos da política pública, mas a ênfase dada durante a pandemia, no caso do auxílio emergencial, recaiu sobre os invisíveis. É verdade, os mais idosos ganharam a antecipação do 13º salário da Previdência Social, mas isso não é propriamente um ganho de renda”.

Tal cenário prejudica o bem-estar da faixa de idosos, em um momento da vida que exige maiores cuidados e atenção à saúde. Mais de 58% deles apontaram ter pelo menos uma doença crônica não transmissível, como diabetes, doença respiratória e hipertensão. Foi o que mostrou estudo da Fiocruz que mapeou os efeitos da pandemia nas condições de saúde dessa população. Cerca de 72% indicaram aumento de sentimentos relacionados à solidão e à tristeza durante o isolamento social. 

Como explica Dalia Elena Romero, pesquisadora da Fiocruz e uma das autoras do estudo, a solidão pode agravar os riscos de desenvolvimento de outras doenças. O medo constante, que cresceu na pandemia, e o estigma que a população carrega os tornam ainda mais vulneráveis.

“Tem se tornado perigoso envelhecer no Brasil por questões que vão além das perdas de renda  –  é quase uma violência garantida. Essa perda de valor que o idoso sofre na sociedade, consequência do idadismo, e da deterioração, principalmente, da atenção primária de saúde da família, expõe o desinteresse e a invisibilidade em garantir qualidade de vida para esse grupo, porque apenas se visibilizam as doenças e não as pessoas idosas”, alerta Dalia. 

As lambanças da Prevent Senior expostas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado mostraram, também, que as atividades dos planos de saúde podem não estar sendo devidamente fiscalizadas e supervisionadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), organismo regulador do setor. O alto custo dos planos de saúde e a falta de qualidade de muitos dos seus serviços são mais um fator de preocupação e de corrosão das aposentadorias.

E, atenção, este não é um problema que se circunscreve ao segmento sênior da população. Enfraquece também as políticas públicas. Quando desistem da cobertura de planos de saúde porque seu poder aquisitivo não dá conta do aumento das despesas, essas pessoas não têm outra saída senão recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que sobrecarrega os serviços públicos não só com mais despesas, mas, também, com maior utilização das instalações de hospitais e postos de saúde pública./COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

 

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