Os impasses da crise

A queda nos investimentos e o desemprego são as consequências da opção pelo 'desenvolvimento a qualquer preço'

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2015 | 02h05

Uma controvérsia recorrente e inútil entre economistas é a que opõe desenvolvimentistas a monetaristas. Trata-se de um debate que se exacerba nos períodos críticos de crises. Mas a história recente do País mostra que sempre após um período de expansão descontrolada dos gastos públicos e do consumo - somados ao descaso com as pressões inflacionárias - vem uma longa retração do crescimento. A reversão de expectativas, a queda nos investimentos e o desemprego completam a dura realidade, como consequência da opção pelo "desenvolvimento a qualquer preço".

As crises políticas no Brasil resultam, em geral, de fortes desequilíbrios econômicos. A princípio, parece simplista, mas a constatação histórica mostra que recessão e/ou inflação são fatores desencadeadores de graves crises. Claro que estas são alimentadas também por fatores políticos, e o mais forte é a tentativa de o Executivo marginalizar o Legislativo e querer governar "com o povo". Mas, quando o Executivo faz isso, é porque as condições econômicas já se deterioraram e ele tenta manter o poder.

É interessante notar que a inflação - um dos principais fatores de agravamento da pobreza - é vista pela população como "suportável" quando o crescimento econômico é mais acelerado e são reduzidas as taxas de desemprego, o que dá munição aos desenvolvimentistas. Mas, quando ocorre baixo crescimento ou recessão prolongada, a inflação fora de controle passa a ser mais sentida, realidade que dá fortes argumentos aos monetaristas. O debate se exacerba porque uns querem retomar o crescimento em meio às piores expectativas e outros advertem que sem uma "freada de arrumação" não é possível retomar crescimento algum.

O Brasil teve uma sucessão de crises a partir dos anos 50. É interessante fazer esta resenha nos valendo das séries históricas do Ipea e do IBGE. Entre 1950 e 1954 (2.º governo Vargas), apesar de a economia crescer à taxa média anual de 6%, a inflação saltou de 13% para 25% ao ano. Em 1954, a crise política levou ao suicídio de Vargas e à mudança nos fundamentos da política econômica. A inflação caiu após um interregno de ajuste fiscal e acerto das contas públicas em 1955, para recrudescer no governo Kubitschek (1956-1960). Nesse período o PIB cresceu, em média, a mais de 8% ao ano e a inflação, após declinar para 12% em 1955, chegou a 37% em 1960.

O legado da inflação dos anos dourados caiu no colo de Jânio Quadros (1961), que em nove meses ficou inteiramente perdido entre manter o crescimento ainda forte do PIB (9%) e o controle da inflação já no patamar de 50%. O governo Goulart, de forma desastrada, permitiu a deterioração do ambiente econômico, com a inflação fora de controle (quase 90% em 1963) associada à estagnação do PIB, fatores decisivos para a rápida derrocada do governo. Os militares entram em cena com o governo Castelo Branco (1964-1967), fazendo um forte ajuste fiscal e reformas profundas de natureza econômica e social. O PIB cresceu a 4% anuais, em média, e a inflação sofreu significativa queda, de 87% para 24%.

O forte crescimento do PIB nos 11 anos do chamado "Milagre Brasileiro" (média anual de mais de 9%) arrefeceu as preocupações com a estabilidade da moeda e o controle das contas públicas. Foram anos de crescente descontrole fiscal, financiamento dos investimentos do governo com a ajuda da inflação e grande endividamento externo e interno. O resultado foi um surto que elevou a inflação de 19%, em 1969, para 110% em 1980, que, junto com as crises do petróleo e do México, deu início à derrocada do regime militar.

Para encurtar a história, nos anos 80 e 90 os governos Sarney e Collor fizeram a economia desandar, com longa estagnação e uma inflação anual que subiu de 242%, em 1985, para inacreditáveis 2.851% em 1993, resultando no impedimento do presidente no ano anterior. Guardadas as proporções e sem a "proteção" da correção monetária, não se precisa de oráculo para antever o que representa uma recessão prolongada com uma inflação de dois dígitos.

*Josef Barat é economista, consultor de entidades públicas e privadas e coordenador do núcleo de Estudos Urbanos da ACSP

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