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Os insanos rumores na internet francesa

Boatos e vídeos simplistas influenciam opinião pública no país, espalhando até mesmo mentiras

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2013 | 02h05

PARIS - A internet é como a "língua de Esopo", a melhor e a pior coisa do mundo. Na manhã de terça-feira, numa cidade francesa, policiais interpelaram um motorista embriagado. Uma passageira se rebela. Um policial espanca a mulher com uma violência inaudita, para depois algemá-la e inundá-la de gás lacrimogêneo. A cena foi filmada por um vizinho que a colocou na internet e foi vista por 700 mil pessoas.

Claro que não podemos julgar os fatos com base nessas simples imagens.

Talvez o policial exaltado tenha sido ameaçado pelo grupo. Em todo caso, esta confusão que, sem a internet, passaria desapercebida, hoje é conhecida do país inteiro. Um inquérito a respeito foi aberto.

Há outros casos em que a internet serve para espalhar mentiras e ódio, em resumo, o mal. Outrora, quando alguém odiava o vizinho, lhe enviava uma "carta anônima" ou o denunciava à polícia. As pessoas que soltavam o seu veneno na França eram chamadas de "corvo".

O "corvo" era um amador, um pobre coitado, um "pequeno artesão do mal". Hoje, graças à internet, este artesão do mal industrializou-se. Deposita seu excremento na internet e sabe que centenas de milhares de pessoas o verão em 24 horas.

Eis alguns casos recentes na França: A "companheira" de François Hollande, Valérie Trierweiler, foi ao Catar. Na internet uma foto mostra Valérie em visita a uma creche. Seu traje é curioso: um vestido rosa pálido, mas ligeiramente transparente, de modo que os internautas podiam ver suas pernas, a barriga e até mesmo sua calça. E tudo isto em um país onde as mulheres estão cobertas por véus. A foto girou o mundo. Mas uma foto que, embora real, foi retocada por especialistas.

O jornal Le Canard Enchainé cita um outro caso. Há três anos foi circulou na internet que a cruz verde, emblema das farmácias na França, seria proibida porque aos olhos dos muçulmanos ela é um símbolo de afiliação religiosa.

Um outro rumor sugeria que o símbolo da adição, o sinal +, seria proibido nas escolas a pedido dos muçulmanos porque este sinal é uma cruz e a cruz é a Cruz do Cristo. Esta mensagem absurda foi lançada na internet por um pequeno grupo fascista, "o bloco da identidade".

Outra farsa que invadiu a internet: o prefeito de Paris, o socialista Bertrand Delanöe, teria aceito que uma mesquita fosse instalada no primeiro andar da torre Eiffel.

Às vezes o rumor tem objetivos econômicos, comerciais. Por exemplo, uma notícia falsa invadiu a internet nos Estados Unidos, alertando contra os lenços umedecidos da marca Swifter: um gato tinha engolido o lenço e morreu depois de um sofrimento atroz.

Há ainda outras histórias "clássicas": os romenos roubam crianças e vendem seus órgãos para hospitais. Ou ainda, pessoas com aids escondem suas seringas contaminadas em poltronas dos cinemas com o fim de globalizar a terrível doença.

Atualmente, no Google, quando digitamos o nome da ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, surgem várias rubricas, entre elas: "Taubira filho prisão", ou "Taubira filho assassino". Ao clicar numa delas ficamos sabendo que o filho da ministra está preso por ter assassinado um adolescente. Ouvimos até a súplica da mãe do menino assassinado pelo filho da ministra.

Tudo isso é grotesco? Sim, mas este grotesco está a serviço da paixão política: Christine Taubira é detestada porque defendeu no Parlamento uma lei que autoriza o casamento gay.

Os inventores dessa vilania atingem dois alvos de uma só vez: a ministra da Justiça, Christiane Taubira, e também as inúmeras pessoas que protestaram contra o casamento gay, mas não têm nada a ver com esta "indecência" na internet.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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