Os investimentos em 2015-2018

A questão da ampliação dos investimentos na economia brasileira é um dos grandes desafios para a retomada do crescimento econômico em bases sustentadas nos próximos anos. Prospectar as intenções de novos projetos é fundamental para o planejamento governamental e também para as decisões empresariais.

Antônio Corrêa de Lacerda, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2014 | 02h03

Um ambiente favorável aos investimentos começa com um cenário macroeconômico estável. Já tivemos um bom começo com o anúncio da nova equipe econômica e as principais linhas de medidas fiscais visando ao ajuste. A nova equipe comprometeu-se com um superávit fiscal primário de 1,2% do PIB em 2015. É inegavelmente uma condição necessária, mas ainda insuficiente para suportar os programas de investimentos futuros. O setor público tem papel relevante na implementação de projetos de viabilidade expressiva, além de ter o importante papel de coordenar a coerência entre as políticas macroeconômicas e as políticas setoriais e de competitividade que induzam a decisões de projetos.

Outro ponto que merece destaque é que a infraestrutura, motor dos investimentos dos próximos anos, carece de fontes de financiamento de longo prazo, hoje restritas aos bancos públicos. Portanto, enquanto não se viabilizar um mercado privado de financiamento alternativo, é muito importante garantir o funding de financiamento público voltado para projetos.

O BNDES, além das suas atividades precípuas de financiamento, tem sistematicamente contribuído para a questão das projeções de investimentos ao manter a divulgação regular, há 9 anos, das perspectivas de investimentos. O trabalho leva em conta tanto a pesquisa proprietária do banco com empresas de um universo representativo da economia brasileira, aproveitando o seu privilegiado posto de observação, quanto o complemento deste trabalho com a incorporação de visões de outros centros de observação, além de modelos econométricos de projeção.

Os investimentos em perspectiva para o período 2015-2018, segundo esse relatório, atingem R$ 4,1 trilhões, o que representa um crescimento real de 17%, um taxa anualizada de 3,2%, em relação ao quadriênio 2010-2013. Na indústria, espera-se crescimento real do investimento de 3,5% ao ano, impulsionado por petróleo & gás. Destacam-se ainda as perspectivas para os setores aeroespacial e o complexo industrial da saúde. Ambos contam com programas de compras públicas que alavancam a demanda em defesa e em saúde. Em contrapartida, os setores intensivos em capital apresentam crescimento baixo ou mesmo queda, em razão tanto do menor dinamismo da demanda mundial quanto da maturação de um ciclo de investimentos em ampliação da capacidade produtiva no País. Neste caso, a expectativa é de que o nível de utilização da capacidade volte a subir antes de vermos um ciclo mais robusto de investimento.

Na infraestrutura, as maiores taxas de crescimento estão em setores ligados à logística: portos, ferrovias e aeroportos. Entre os investimentos mapeados estão aqueles feitos por meio de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs), contemplados pelo Programa de Investimento em Logística (PIL). Outro destaque na infraestrutura são as telecomunicações, com novo ciclo de investimentos resultantes da introdução do 4G.

Destaque-se que um ponto relevante do levantamento é a aderência entre o prospectado e o realizado. Uma comparação dos levantamentos entre 2007 e 2013 nos leva a um índice médio de 91% de acerto. Ou seja, na prática, 9 entre 10 projetos prospectados foram efetivamente realizados, o que destaca a qualidade do trabalho realizado.

Outro ponto relevante a ser observado é que o novo quadro da economia mundial, de menor crescimento e queda nos preços das commodities, se reflete diretamente nas expectativas de investimentos locais. Considerando os 12 setores industriais e de infraestrutura mais relevantes, houve redução de crescimento de expectativa de investimentos de 9,4%, no período 2011-2014, para 4,2%, para 2015-2018.

* É professor-doutor e coordenador do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUC-SP. E-mail: lacerda.economista@gmail.com

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