TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

Após a queda da atividade econômica no período da crise nacional, a região do Grande ABC começa a recuperar o fôlego perdido e teve confirmados no ano passado US$ 3 bilhões em investimentos, o maior valor em uma década. Nos últimos três anos, os aportes ficaram abaixo de US$ 1 bilhão.

Do total anunciado, cerca de 90% vêm do setor automotivo, cujas maiores empresas se concentram no município de São Bernardo do Campo que, sozinho, responde por 38,2% do Produto Interno Bruto (PIB) da região, formada também por Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

A confirmação de novos projetos veio acompanhada de uma previsão de crescimento de 5,4% do PIB em 2017, cujo resultado oficial só será confirmado futuramente. O Observatório Econômico da Universidade Metodista, que organiza e divulga informações da região, calcula que em 2016 já houve recuperação de 4,9% da economia local, após a forte queda de 15,4% registrada um ano antes.

Estão à frente dos investimentos as fabricantes Volkswagen e Scania, ambas de São Bernardo, e a General Motors, de São Caetano, que se preparam para lançamentos de novos veículos e passam por processo de modernização das fábricas adotando processos da chamada Indústria 4.0.

Embora nos últimos anos tenha perdido espaço na economia local para a área de serviços – a exemplo do que ocorre em várias outras regiões do País –, o setor industrial do ABC mantém uma estrutura ainda robusta, apoiada principalmente nas grandes empresas, que são importadoras de insumos e exportadoras de produtos para a América Latina.

“A região apresenta uma participação do setor industrial no PIB mais intensa que a economia nacional, o que mostra sua importância para o local”, afirma Sandro Maskio, coordenador do Observatório Econômico. A indústria responde por 23,2% do PIB regional. Do PIB nacional, o setor tem participação de 18,5%. Por ter representatividade maior, quando a economia como um todo retrai, a região acaba sendo mais afetada, ressalta o economista.

O vice-presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) de São Bernardo, Mauro Miaguti, não acredita em uma ampliação do peso do setor industrial na região nos próximos anos, principalmente pela falta de uma política robusta por parte do governo federal.

Desindustrialização

Segundo Miaguti, o processo de desindustrialização ocorrido com mais força nos anos 90 tem a ver, em parte, com a decisão do governo do Estado de São Paulo de pulverizar os polos industriais. “Como havia áreas disponíveis no interior, foram oferecidos muitos incentivos para que as empresas mudassem ou instalassem novas filiais em outras cidades”, diz o executivo do Ciesp. A guerra fiscal também atraiu fábricas para outros Estados.

Foi o que ocorreu, por exemplo, com novas montadoras que chegaram ao País, como Hyundai, que escolheu Piracicaba, e BMW (que foi para Santa Catarina) ou com grupos que abriram novas plantas, como a Toyota, que abriu unidades em Indaiatuba e Sorocaba. A Mercedes-Benz avaliou a cidade de São Bernardo para instalar sua fábrica de automóveis, mas pela indisponibilidade de uma grande área acabou indo para Iracemápolis.

Ainda assim, a indústria do ABC deve continuar tendo importante participação na economia regional, mesmo que ocorra a ampliação do setor de serviços que, em boa parte, está atrelada à demanda do setor industrial. A área de logística, por exemplo, vem crescendo na região, principalmente, na prestação de serviços para a indústria automobilística.

Para Maskio e Miaguti, a indústria local precisa promover inovação, assim como o segmento de serviços, o que exigirá esforço conjunto de ações federais, estaduais, locais, e também das empresas, “com transbordamento aos segmentos de médias e pequenas empresas”, diz Maskio.

Uma aposta da região é a chegada da Saab Aeronáutica Montagens, que vai produzir em São Bernardo partes estruturais para a montagem de aviões-caça Gripen para a Força Aérea Brasileira (FAB). A expectativa, diz Miaguti, é que a empresa atraia novos fornecedores e também incremente a produção das autopeças locais, que poderão fornecer para montadoras e para a Saab.

A empresa iniciará operações em 2020 com 55 funcionários, a maioria engenheiros e técnicos. Até 2024, o número deverá chegar a 200. “Embora sejam poucos, são postos de maior valor agregado e salários melhores”, prevê Miaguti.

Trabalho 

Além de conhecida como berço da indústria automotiva, o ABC também é considerado berço do sindicalismo. Foi em São Bernardo, no fim dos anos 70, que ocorreram grandes greves de metalúrgicos por reajuste salarial.

Nos anos mais recentes, o papel dos sindicatos vem sendo ampliado. “Nosso desafio atual é preparar os trabalhadores para a quarta revolução industrial”, diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana.

“Precisamos entender quais profissões vão sobreviver e que tipo de qualificação é necessário”, diz Santana. Ele também ressalta que a luta para manter as empresas na região “é contínua” e passa por garantir a competitividade da fábrica para atrair novos projetos

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Setor de serviços puxará avanço econômico de São Bernardo do Campo

Setor responde hoje por 69,7% do PIB da cidade e emprega 66% da mão de obra; inovação e integração não podem sair do radar da indústria

Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

Os últimos anos de atividade econômica vacilante no País têm imposto ao Grande ABC a complexa missão de se repensar e buscar novas estratégias para a recuperação. Historicamente ligada à produção industrial, a região mudou de perfil ao longo das décadas. Hoje, o setor de serviços responde por mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) regional e já emprega a boa parte da mão de obra. 

Esse deve ser o caminho tomado pelas cidades do ABC, em ações conjuntas, para se recuperarem, acreditam especialistas e empresários reunidos na quinta-feira passada, na pinacoteca de São Bernardo, para o Fórum Estadão - O futuro do Grande ABC: os novos rumos para São Bernardo

O evento, uma iniciativa do Estado em parceria com a prefeitura de São Bernardo, foi aberto pelo prefeito do município, Orlando Morando. “Nossa região não consegue avançar isoladamente. Cada um tem sua característica, mas o desafio é sempre o mesmo.”

Na avaliação do diretor da área de Análise Setorial e Inteligência de Mercado da consultoria Tendências, Adriano Pitoli, a região é muito sensível às oscilações da atividade econômica do País. “Qualquer resfriado, vira uma pneumonia”, compara. O remédio, acredita Pitoli, é atrair investimentos para o setor de serviços, que responde por 69,7% do PIB e emprega 66% da mão de obra apenas em São Bernardo do Campo. “A indústria tradicional tem capacidade de puxar a recuperação da região no curto prazo, mas cada vez mais vai ser importante pensar na diversificação da vocação do município.”

Inovação

Parte da capacidade de desenvolvimento dos serviços do ABC está relacionada à disposição de inovar. “A crise nos dá a chance de fazer coisas melhores”, avalia Marcos Fernandes, diretor da Basf.

Há 60 anos em São Bernardo, a fabricante de máquinas B. Grob tem investido na capacidade de automação dos equipamentos. “Nosso produto migra cada vez mais para um conteúdo de serviços, estamos inseridos nesse contexto de produtividade criado pelas novas tecnologias”, diz Oscar Passos, vice-presidente da empresa. “Vamos continuar investindo, principalmente nas pessoas, e inovando.”

Também presente ao evento, o diretor de Relações Institucionais e Governamentais para a América Latina da Scania, Gustavo Bonini, disse que mesmo tendo um perfil tradicional, há muita inovação na indústria automobilística. Segundo ele, “isso gera a necessidade de novos fornecedores e serviços”. 

Roberto Leoncini, vice-presidente de Vendas e Marketing da Mercedes-Benz, acredita que o setor automotivo vai mudar. “O negócio da nossa empresa na ponta, na distribuição, vai mudar e temos vários desafios. Então, é preciso investir em pessoas e em inovação.” Mas, conforme apontado pelo diretor do Comitê de Fomento Industrial do Polo do Grande ABC (Cofip), Francisco Sergio Ruiz, falta integração entre os setores acadêmico, produtivo e público. Problema também citado pelos outros participantes do evento. 

Destacado todo o potencial da região, especialmente de São Bernardo, é uma preocupação da administração da cidade, não só atrair empresas, mas principalmente mantê-las na região. Porque, como disse Valter Moura Junior, diretor do Departamento de Empreendedorismo, Trabalho e Renda (SDECT) da prefeitura de São Bernardo, quem realmente traz emprego e gera renda é o setor privado. 

‘SBC e o Grande ABC são maiores que suas fronteiras’

O evento Fórum Estadão – O futuro do ABC: os novos rumos para São Bernardo, realizado na quinta-feira passada na pinacoteca da cidade, foi aberto pelo prefeito de São Bernardo, Orlando Morando. Segundo ele, a região formada por sete cidades, é muito maior do que as suas fronteiras. “Somos o celeiro de uma diversidade de produtos, de serviços, de inteligência, de um campo universitário muito maior do que se imagina.”

Morando disse que o evento, que coincidiu este ano com o aniversário de 465 anos de São Bernardo, deve ser repetido anualmente ou semestralmente para se discutir o futuro do município e da região. 

No auge da crise econômica, com elevado índice de desemprego, grandes empresas estagnadas e as pequenas endividadas, houve temor de que a cidade “poderia virar uma Detroit”.

Em seu discurso, Morando criticou a alta carga tributária do País e ressaltou que, para atrair mais investimentos, São Bernardo é a única cidade da região metropolitana a dar desconto gradual no IPTU para empresas que geram novos empregos. A partir de 100 vagas, o desconto passa a valer e varia de 5% a 30%, dependendo da quantidade de vagas criadas.

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Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

Em 2014, startup era uma palavra que não cruzava as fronteiras do ABC paulista. Pelo menos essa foi a impressão de Victor Ramos quando lançou o VegPet, um e-commerce de alimentos vegetarianos para cães e gatos com sede em São Bernardo do Campo. “No começo, a gente buscava investimento e as pessoas, sem entender a lógica de uma startup, perguntavam quanto do CDI renderia o dinheiro empenhado.” Hoje, a VegPet fatura mais de R$ 1 milhão por ano e é uma das mais de 70 startups existentes nas sete cidades da região.

Nos últimos três anos, o perfil da economia do Grande ABC, muito ligado à atividade industrial, tem mudado. O setor de serviços já responde pela maior fatia do PIB, o número de empreendedores aumenta e há demanda crescente por inovação. Um dos primeiros pontos de encontro dos “startupeiros”, como são denominados esses empreendedores, foi o Instituto de Tecnologia de São Caetano do Sul (ITSCS). Hoje, as iniciativas para desenvolver projetos inovadores se multiplicam. Além do ITESCS, as Universidades Metodista e Federal do ABC criaram incubadoras, há laboratórios do Senai-SP e do Instituto Mauá e até escritórios de investidores instalaram núcleos regionais. 

Criada no segundo semestre do ano passado, a Mondó, incubadora da Universidade Metodista, em São Bernardo, nasceu com o objetivo de estimular o empreendedorismo entre os alunos. “Sempre se formou profissionais para o mercado formal, para as grandes empresas que estão aqui. Queremos ir além disso”, diz o professor e coordenador da incubadora universitária, Antero Matias. 

Atualmente, dos nove projetos incubados na Mondó, cinco são de alunos. Além do espaço para trabalho, a incubadora presta serviço de mentoria de projetos e oferece cursos de gestão de negócios. “Apostamos no que ainda não existe, apostamos em ideias”, afirma Matias.

Para o presidente do ITESCS, Luiz Schimitd, o ABC está mais próximo de se tornar uma versão paulista do Vale do Silício, região da Califórnia reconhecida por suas empresas de tecnologia, do que Detroit, também nos EUA, que ainda tenta se reestruturar após a crise que atingiu o setor automobilístico americano há quase dez anos. “A região é geograficamente pequena, mas com potencial logístico enorme e boas universidades. Além disso, as empresas daqui necessitam cada vez mais de serviços inovadores.”

Estreitar os laços

O ecossistema de startups local se desenvolveu de forma bastante independente e o interesse do setor público e das empresas do ABC ainda é baixo, na opinião do coordenador da Mondó. No entanto, esses laços começam a se estreitar. 

Há um ano, a prefeitura de São Bernardo lançou o Centro de Empreendedorismo e Inovação Tecnológica. O primeiro edital selecionou 19 projetos que estão, agora, em desenvolvimento. O segundo edital tem inscrições abertas até 24 de setembro. 

O setor produtivo também busca aproximação. O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) prevê para o primeiro semestre de 2019 uma edição do programa Acelera Startup em São Bernardo. “O grande desafio é trazer para as pequenas e médias empresas a cultura de inovação”, avalia Claudio Barberini Jr., diretor do Ciesp na cidade, que esteve presente na quinta-feira passada no Fórum Estadão - O futuro do ABC: os novos caminhos para São Bernardo. 

Para Luiz Schimitd, do ITESCS, essas oportunidades levam a apostar que as startups podem mudar a matriz econômica local. Depois de ver sua empresa nascer e crescer na região, Ramos, da VegPet, também acredita nisso. “Sempre procuramos manter nosso negócio no ABC, aqui temos mais conexão. Essa primeira onda de startups tem potencial para estimular novas ondas de inovação.”

 

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Raquel Brandão, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

No Brasil, a cada dez segundos um cadastro de microempreendedor individual (MEI) é feito, calcula a Serasa Experian. O discurso de “ser o próprio chefe” também ganhou força no Grande ABC, onde apenas em quatro anos, o número de MEIs praticamente dobrou. 

A figura do microempreendedor individual foi criada nacionalmente pela Lei Complementar 128, de 2008, mas se popularizou nos últimos anos, à medida que a economia brasileira sinalizava fraqueza refletida no mercado de trabalho. No ABC, o ano de 2009, o primeiro da lei em vigor, registrou 554 microempreendedores. Em 2014, eram 56 mil. Hoje, são 99,3 mil registros, com a maior parte distribuída entre as cidades de Santo André, Diadema e São Bernardo.

Morador de São Bernardo, o fotógrafo Raphael Augusto Federighi, 39 anos, se registrou como microempresário em 2012. Mas apenas há quatro meses, quando saiu do emprego com carteira assinada, Federighi se dedica exclusivamente à atividade. “Valeu a pena me formalizar e poder emitir nota, porque essa era uma exigência para prestar serviço para empresas. Antes, eu achava que precisava de contador”, avalia. 

As estatísticas da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo do Campo dão conta de que existem 31.218 registros de MEIs na cidade, no entanto, somente 18,3 mil cadastros estão ativos. Entre as principais atividades dos microempreendedores locais, estão as de transporte, de serviços de cabeleireiro, de comércio de roupas, de construção civil e de venda de peças automotivas.

No primeiro semestre, o espaço da prefeitura da cidade e do Sebrae dedicado a tirar dúvidas e oferecer cursos a empreendedores individuais e micro e pequenos empresários fez 2.549 atendimentos, 48% a mais do que no mesmo período de 2017.

O perfil desses atendidos, conta Valter Moura Junior, diretor de Empreendedorismo, Trabalho e Renda da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, é, em geral, de desempregados. “Existe a vontade dessas pessoas de terem o próprio negócio por meio da formalização do MEI, por isso, nós os qualificamos para que atuem na nossa cidade. Foram os micro e pequenos negócios que mais geraram postos de trabalho no Brasil. Eles são essenciais para nossa economia.”

Para 67% dos microempreendedores individuais em todo o País, o trabalho como MEI foi importante para enfrentar os anos de crise, aponta pesquisa do Sebrae. No entanto, o empreendedorismo por necessidade tende a aumentar o índice de mortalidade das empresas. Em São Bernardo, apenas entre 2016 e 2017 o número de registros de MEI encerrados pulou de 494 para 723. 

Emprego e renda

Embora a geração de postos de trabalho formal tenha voltado a ser positiva em 2018, a recuperação do mercado de trabalho no Grande ABC é lenta. Resistente, o índice de desemprego local tem se mantido no patamar dos 17% desde janeiro de 2017. 

O coordenador de Estudos do Observatório Econômico da Universidade Metodista, Sandro Maskio, é pouco otimista. Para o pesquisador, como a estrutura produtiva está pequena, qualquer melhoria já significa mais emprego. “Não há retomada sólida.” A observação do pesquisador foi feita no Fórum Estadão - O futuro do ABC: os novos rumos para São Bernardo.

A paradeira do mercado de trabalho também é observada em indicadores de desenvolvimento. Divulgado no fim de junho, o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal, que avalia mais de 2 mil municípios brasileiros, apontou que o desempenho de nenhuma das sete cidades do ABC foi superior à classificação moderada no item emprego e renda, de acordo com dados de 2016. A maior queda foi de São Caetano, que passou do 17.º lugar no ranking de 2006 para a posição 257. No caso de São Bernardo, o indicador se retraiu de 0,7139 ponto, desempenho classificado como moderado, para 0,5903 ponto, de desenvolvimento apenas regular. O índice também considera dados de Educação e Saúde. 

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