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Os juros e os mágicos

Parte do enorme juro real pode ser atribuída ao risco percebido pelos credores

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2017 | 05h00

O Brasil, como todos sabem, é um país de taxa de juros altíssima, incluindo o conceito ainda mais importante de juro real, isto é, descontada da inflação. Essa aberração nacional pode ser dividida em dois componentes, a taxa de juro básica e o chamado “spread. A questão do “spread” envolve todo um debate, que vai da fragilidade legal das garantias à concentração no mercado bancário. Em termos macroeconômicos, porém, a grande “jabuticaba” brasileira é o nível extremamente elevado do juro real básico.

Em recente entrevista ao Broadcast, Ilan Goldfajn, presidente do BC, disse que o tamanho da queda do juro real no Brasil depende das reformas estruturais da economia. Ele se referiu ao chamado “juro de equilíbrio”, que é aquela taxa básica real que nem acelera nem freia a economia. Porque é evidente que o BC pode baixar a Selic, a taxa básica, na marra, se estiver totalmente despreocupado com a inflação.

O grande desafio, portanto, é baixar o juro real de equilíbrio no Brasil. Nunca faltaram, ao longo das últimas décadas, os vendedores de soluções mágicas para esse problema. Resumidamente, nessas “explicações” o juro é muito elevado porque alguma peça está fora de lugar no motor, e basta ajustá-la para que o Brasil volte à normalidade. Não é a qualidade geral do motor que é ruim, é apenas questão de dar uma guaribada.

Na mesma entrevista, Ilan classificou esse tipo de ideia de “teorias do desejo”, que se opõem à dura realidade que o Banco Central tem de enfrentar. A boa notícia, entretanto, é que o juro real no Brasil pode cair sem nenhuma mágica. Para isso, porém, é preciso paciência e disciplina para sustentar um processo necessariamente gradual, e para o qual as reformas aludidas pelo presidente do BC são fundamentais.

Nos cálculos do economista Fernando Rocha, sócio da gestora de recursos JGP, o Brasil só vai parar de ter déficits primários (resultado fiscal excluindo o pagamento de juros) em 2021, e mesmo assim se houver algum aumento de impostos. Até lá, a dívida bruta do governo deve subir de 71% do PIB, do fechamento de 2016, para cerca de 90%.

Parte do enorme juro real brasileiro pode ser atribuída simplesmente ao risco percebido pelos credores do governo. Quanto maior a insegurança, mais se cobra. Nesse sentido, reformas como o teto do gasto público e a da Previdência são fundamentais para que os investidores percebam que, mesmo que a dívida pública brasileira esteja crescendo a grande velocidade no presente, alguma coisa vai acontecer lá na frente para brecar esta tendência.

Mas o impacto das reformas no juro real não para por aí. Reformas como a trabalhista, a tributária e outras medidas para desburocratizar e melhorar o ambiente de negócios melhoram a capacidade da economia brasileira de ofertar bens e serviços. Quando o juro cai e a demanda sobe, a oferta reage à altura, permitindo um juro de equilíbrio mais baixo.

Rocha nota que o juro real dos títulos públicos indexados ao IPCA com vencimento em 2022, um referencial relevante, estão hoje em 5,76%. Essa taxa chegou a cair a 3,2% no final de 2012, quando ainda se vivia a miragem da nova matriz econômica, e chegou a 7,8% em setembro de 2015, em meio a deterioração econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff. O economista acha que o juro real pode cair gradativamente para 4% numa primeira etapa, se o Brasil seguir fazendo a coisa certa na política econômica.

Uma taxa real mais baixa não só reduz a carga de juros que o governo paga, como estimula o crescimento da economia, atacando pelos dois flancos o crescimento da relação entre a dívida e o PIB. Menor elevação desta relação, por sua vez, reduz o risco e o juro real, que diminui a carga de juros e acelera a economia. Este círculo virtuoso está ao alcance do Brasil, desde que a impaciência não traga de volta os mágicos de araque.

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