Infográficos/Estadão
Infográficos/Estadão

Os juros escorchantes

Os juros altos no Brasil são o resultado de uma economia carente de capitais e viciada em inflação e em indexação

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

12 Julho 2016 | 21h00

É compreensível que empresários, analistas e consumidores reclamem dos juros excessivamente altos no Brasil. Mas isso não justifica a derrubada na marra dessa forte pressão arterial, independentemente do estado de saúde geral da economia.

Nesse quesito o País também está na contramão. O momento é de abundância nunca vista de recursos ao redor do mundo, situação que derrubou o preço do dinheiro (juros) no mercado internacional a níveis também nunca vistos. Os grandes bancos centrais operam a juros negativos. Enquanto isso, o Brasil continua ostentando juros básicos (Selic) de 14,25% ao ano. E se formos conferir os praticados no crédito, teremos impressionantes anomalias: 26,2% ao ano no capital de giro das empresas; 53,9% nos empréstimos pessoais; 311,3% nos cheques especiais; e 471,3% na parcela devedora do cartão de crédito. 

Há um punhado de explicações para essa distorção que não cabe aqui revisitar. São avaliações exaustivas e provavelmente insuficientes para contar toda a história. No entanto, o que não se pode é tentar resolver o problema com o diagnóstico errado.

A esquerda míope atribui os juros altos demais no Brasil a variações de uma teoria conspiratória. Para ela, o País divide-se entre os que vivem de renda (rentistas), que não passaria de uma forma de apropriação de mais-valia, e o resto da população, que sustenta essa gente. Outra vertente da mesma teoria é a de que o juro escorchante é jogo dos banqueiros, que operam em oligopólio, cobram o que querem, sempre acabam influenciando a nomeação dos dirigentes do Banco Central e, nessas condições, impõem seu jogo, como se os banqueiros daqui fossem mais gananciosos e mais perversos do que os do resto do mundo, onde prevalecem juros negativos, como ficou dito.

Os juros altos no Brasil são o resultado de uma economia carente de capitais e viciada em inflação e em indexação (correção automática de preços e valores pela inflação passada). Por si sós produzem novas deformações, como a baixa disposição ao investimento e a má alocação de recursos. Nesse sentido, o “rentismo” é também consequência, e não causa do problema.

A tentativa de derrubar os juros na marra foi tentada em 2011 pela presidente Dilma e foi o fiasco retumbante conhecido, que produziu consumo excessivo, mais inflação, recessão e desemprego. O próprio governo tratou de reverter seu erro e permitiu que o Banco Central passasse a operar com juros reais positivos - e chegamos assim aos 14,25% ao ano, também no governo Dilma.

A esquerda infantil deveria ter aprendido que não é assim que se lida com essas anomalias. O primeiro passo, inevitável, é garantir equilíbrio fiscal para que despesas excessivas do governo não provoquem aumento desproporcional do consumo e, por aí, também inflação. O segundo passo é continuar a trabalhar com dinheiro curto para ajudar a derrubar a inflação. Quando os principais fundamentos da economia estiverem outra vez nos trilhos, os juros, aí sim, poderão cair para onde tiverem de cair.

CONFIRA:

Aí está a evolução das vendas do varejo nos 12 últimos meses.

Na espera

Por enquanto não há nenhum indício de recuperação do consumo. Ao contrário, os levantamentos mostram a continuação da queda, até mesmo em maio, mês em que o Dia das Mães tende a ajudar. O mercado segue sob a dominância da perda de renda, desemprego e aumento da inflação. E isso não é tudo. As incertezas em relação ao que vem aí levam, naturalmente, o consumidor a atitudes mais conservadoras, a esperar por uma melhora do seu orçamento.

Mais conteúdo sobre:
Celso Ming Juros Inflação Banco Central

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.