Os lucros da fé em feira no Anhembi

Expo Cristã espera movimentar R$ 100 milhões

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h07

Urnas blindadas para o dízimo. Estilistas de "moda crente". Bíblias a R$ 1,99. Livros, CDs, DVDs, e o primeiro filme evangélico a entrar no circuito oficial de cinema. Está tudo na Expo Cristã, feira evangélica que abre hoje para o público no Parque de Exposições do Anhembi com 300 estandes e expectativa de movimentar R$ 100 milhões até domingo. São esperadas mais de 160 mil pessoas. Com a graça de Deus, repetem os expositores.

Os maiores estandes são de gravadoras como a Som Livre e a Sony, para as quais o segmento de música gospel já representa 14% e 10% do faturamento, respectivamente. "Se considerarmos todo o segmento religioso, incluindo o católico, ultrapassa 20%", diz o diretor executivo da Sony Music para o segmento evangélico, Mauricio Soares.

Na fé como nos negócios, evangélicos e católicos concorrem. No ano passado, o CD mais vendido no Brasil foi o do Padre Marcelo Rossi. Entre os dez no topo da lista da Associação Brasileira de Produtores de Discos, há outros três padres católicos. Mas, pela primeira vez, está também um evangélico, da cantora Damares, que vendeu 400 mil cópias do disco Diamante.

Há hoje no Brasil cerca de 3 mil pontos de venda de música gospel, além das grandes redes como FNAC e Saraiva, que trabalham com o segmento. "Temos todo o mercado secular mais pontos específicos", comemora o diretor da Sony, que lançará sete novos CDs na feira. Nos EUA, a Sony é dona da Providence, a maior gravadora gospel do mundo, e pensa em comprar selos que se espalham pelo Brasil, grande parte deles de pastores.

A Ecad, que presta serviços de arrecadação de direitos autorais e assessora nomes como Alcione, Martinho da Vila e Fafá de Belém, tenta atrair na feira as novas estrelas gospel. Vozes alçadas à fama em 600 rádios evangélicas no País, algumas representadas ali, além de TVs e sites como www.onlinecomjesus.com.

"Chegou nossa vez", diz o slogan do material de divulgação de Três Histórias e Um Destino, que entra cartaz em 100 salas de cinemas no dia 2 de novembro. Para atrair público, a produtora do longa, a Graça Filmes, do pastor R. R. Soares, lançou a campanha "evangelize dois amigos levando-os ao cinema". Assim, espera alcançar bilheteria de 300 mil espectadores. "O segmento gospel é muito forte nos livros e música, mas ainda está começando no cinema" diz Ygor Siqueira, diretor executivo da Graça Filmes, que tem 85 títulos no portfólio.

O filme, produzido nos EUA, baseia-se no livro de R.R. Soares, também dono da Graça Artes Gráficas, Graça Music e Graça Editorial. Uma rádio e TV por assinatura fazem parte do conglomerado da Igreja Internacional da Graça de Deus, com 3 mil templos no País e presença dos EUA, Índia, Alemanha e África do Sul, segundo Siqueira.

A "moda crente", nas palavras de estilistas na feira, é outro destaque da Expo Cristã. Há marcas como a Wad's Up, com mensagens do tipo Have Faith (Tenha Fé) e a santíssima trindade estampadas em camisetas e acessórios, a roupas de festa. Ex-estilista de marcas de surf, Mara Jager lançou a Quinta da Glória para "mulheres evangélicas e femininas" em 2009. "Fui rebelde numa família de evangélicos até ir para o exterior e ver que podia ser cristã com estilo surfista", diz a designer, que vive em Londres.

No estande do Grupo Pão da Vida, estão à venda coletores de ofertas blindados, com fundo falso, a R$ 50, e fragrâncias "bíblicas".

O Grupo King's Cross levou à feira 50 mil Bíblias a R$ 1,99 - é pouco perto dos 3 milhões de cópias do livro sagrado que vende por ano (ou 40% do mercado brasileiro), em versões variadas. A Bíblia do Executivo, por exemplo, destaca trechos que tratam de economia e negócios. O grupo é dono, ainda, de um shopping evangélico no centro de São Paulo e do King's Cross Bible Comércio de Sucos, que vende cálices para simulações da Santa Ceia em embalagem como a de copinhos de água mineral.

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