Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Os malefícios da hipermobilidade

Viver viajando a trabalho não é só excitante e glamouroso; a experiência dos executivos também é sofrida e insalubre

The Economist

20 de agosto de 2015 | 02h06

Muitos de nós já se pegaram tentando explicar a amigos e colegas que, não, meus caros, viajar a trabalho não é coisa tão excitante e glamourosa quanto parece. Pois bem, finalmente parece haver elementos para sustentar essa opinião. Em março deste ano, Scott A. Cohen e Stefan Gössling, pesquisadores, respectivamente, da Universidade de Surrey, na Grã-Bretanha, e da Universidade de Lineu, na Suécia, publicaram um estudo enfocando o que eles chamam de "faceta sinistra da hipermobilidade".

Os indivíduos "hipermóveis" - majoritária, mas não exclusivamente, executivos que viajam com frequência a negócios - ganharam certo prestígio na sociedade contemporânea, tanto em razão do conhecimento e sofisticação que acumulam em seus périplos, como das postagens deslumbrantes, exalando exotismo, bom-gosto e requinte, com que vão disseminando inveja pelas redes sociais. Mas, advertem os pesquisadores, "ainda que a glamourização da mobilidade seja onipresente em nossas vidas, observa-se um silêncio abominável em relação a seus aspectos mais deletérios."

O estudo, que sintetiza as pesquisas existentes sobre os efeitos das viagens constantes, identifica três tipos de consequências: fisiológicas, psicológicas e emocionais, e sociais. As mais óbvias são as de ordem fisiológica. O jet lag é a disfunção que os viajantes conhecem melhor, embora talvez ignorem alguns de seus efeitos potenciais mais graves, ainda que raros, como a aceleração do envelhecimento e o aumento no risco de ataques cardíacos e derrames. O excesso de viagens aéreas também está associado à maior suscetibilidade a tromboses e expõe a pessoa a germes e radiação - alguém que percorra nos céus mais de 85 mil milhas por ano (fazendo Nova York-Seattle-Nova York a cada três semanas, por exemplo, ou indo e voltando sete vezes entre Nova York e Tóquio) está excedendo o limite regulamentar de exposição a radiação. Por fim, os executivos que viajam muito tendem, obviamente, a se exercitar menos e a se alimentar de maneira menos saudável do que os indivíduos que, no dia a dia, vão apenas de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Os danos psicológicos e emocionais das viagens a trabalho são mais abstratos, mas nem por isso menos reais. As mudanças constantes de cidade e fuso horário produzem desorientação, além de serem estressantes, já que o "tempo gasto viajando raramente é compensado por uma carga de trabalho reduzida, e as obrigações que vão se acumulando enquanto a pessoa está fora (como, por exemplo, a necessidade de responder os e-mails que abarrotam sua caixa de entrada) podem gerar ansiedade". Por conta do tempo passado longe da família e dos amigos, "a hipermobilidade é muitas vezes uma experiência isoladora e solitária", afirmam os autores. O impacto acumulado pode ser significativo. Estudo com 10 mil funcionários do Banco Mundial aponta tendência três vezes maior, entre os que viajam com frequência, a acionar o plano de saúde para cobrir gastos relacionados com questões psicológicas.

Por fim, há os efeitos sociais. Os relacionamentos conjugais sofrem com períodos prolongados de separação, o mesmo acontecendo com o comportamento das crianças. Além disso, tende a se instaurar um desequilíbrio na relação do casal, pois o cônjuge que permanece em casa é obrigado a se responsabilizar por um número maior de tarefas domésticas. Nesse aspecto, observa-se inclusive uma disparidade de gênero, uma vez que a maioria dos executivos que costuma viajar a trabalho é do sexo masculino. (Em levantamento realizado em 2011 pela rede de hotéis Accor com executivos asiáticos, 74% deles eram homens. Resultado semelhante se observa na última pesquisa abrangente com executivos americanos que viajam com frequência, realizada em 2002: os homens chegavam a 77%). As relações de amizade também se esgarçam, pois, ao retornar de suas viagens, esses executivos tendem a "sacrificar atividades coletivas locais, dando prioridade às relações familiares".

Evidentemente, os efeitos negativos são mitigados pelo fato de recaírem desproporcionalmente sobre um segmento da população que vive em condições socioeconômicas bastante boas. A "elite móvel" tende a ter renda mais elevada e acesso a melhores tratamentos de saúde do que a maioria das pessoas. Segundo Cohen e Gössling, na Suécia, 25% das viagens internacionais são realizadas por apenas 3% da população. Na França, uma parcela de 5% responde por metade da distância total viajada pelos cidadãos gauleses.

Em outras palavras, talvez esses problemas sejam exclusividade do 1% (ou 3%, ou 5%) de privilegiados da sociedade. Mas são reais mesmo assim. Quando algum dos seus conhecidos postar fotos no Instagram, retratando refeições exóticas e lugares espetaculares, não reprima a inveja. Mas reserve também um pouquinho de comiseração pelo pobre coitado.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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