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Fábio Alves
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Os maus emergentes

Vulnerabilidade do Brasil continua, mas por motivos diferentes, como a pandemia

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2020 | 04h00

O real brasileiro virou uma batata quente nas mãos dos investidores: além de ter o pior desempenho entre as moedas de países emergentes até o momento neste ano, não deve aproveitar a recente tendência de enfraquecimento global do dólar.

Em meio à piora do risco fiscal, do ambiente político mais conturbado e da pandemia do coronavírus ainda sem controle, o Brasil encabeça hoje uma lista indesejável: a dos maus emergentes.

O Brasil também fazia parte, alguns anos atrás, de outro grupo reprovável: o dos “cinco frágeis”. Era visto pelos investidores, com Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia, como vulnerável em suas contas externas e com elevada dependência do capital estrangeiro.

A vulnerabilidade do Brasil continua, mas por motivos diferentes, muitos deles relacionados com a pandemia, como o aumento significativo do déficit primário e da dívida pública, outros não, como o risco político que atrapalha o avanço de reformas necessárias, entre elas a tributária e a administrativa.

Esse risco político ressurgiu com força quando o Senado derrubou o veto do presidente Jair Bolsonaro a reajustes dos salários de servidores públicos até 2021. A Câmara manteve o veto, mas não foi suficiente para diminuir a desconfiança dos investidores de que o governo não tem base parlamentar suficiente para eliminar a ameaça de relaxamento do teto de gasto.

Some-se a isso tudo o corte da taxa Selic para 2,0%, a mínima histórica. No passado, juros elevados, entre os mais altos do mundo, tornavam difícil para o investidor deixar de comprar o real, ainda que houvesse turbulência macroeconômica ou política. Sem o atrativo do diferencial de juros em seu favor, o Brasil ficou mais suscetível a uma correção do câmbio ao menor sinal de crise.

Não foi uma surpresa, portanto, o dólar ter encerrado a semana passada em alta de 3,3%, elevando o ganho ante o real no ano para quase 40%. No auge do nervosismo na semana passada, a moeda americana ultrapassou R$ 5,67.

“No Brasil, o risco fiscal e a instabilidade política estão altos, mas os juros estão baixos demais para compensar esse risco maior”, diz o sócio e economista-chefe da BlueLine Asset, Fabio Akira. “Preferimos nos posicionar para essa fraqueza do dólar comprando, principalmente, moedas de países da Europa e da Ásia.”

Ele cita três parâmetros seguidos pela BlueLine Asset para se posicionar no mercado de câmbio global: a capacidade para lidar com a pandemia da covid-19, a visibilidade fiscal e o risco político do país ou da região.

Por esses três parâmetros, a China está em melhores condições, o que acaba beneficiando os países asiáticos sob sua influência econômica e também os países exportadores de matérias-primas, segundo Akira.

Os chineses saíram mais rapidamente das duras medidas de distanciamento social e a sua expansão fiscal, para combater o impacto econômico da pandemia, foi bem menor do que nos Estados Unidos, por exemplo. Além disso, os países asiáticos com importante contribuição das indústrias da área de tecnologia estão bem posicionados – ou no grupo dos bons emergentes. Em uma magnitude menor do que na Ásia, os países da Europa também apresentam uma perspectiva melhor de recuperação econômica do que os EUA ou a América Latina, diz Akira.

Para Ettore Marchetti, sócio e responsável pelas estratégias de câmbio e renda fixa na Trafalgar Investimentos, as moedas que devem se valorizar ante o dólar são de países exportadores de commodities, como o petróleo, o cobre e outros metais, cujos preços estão em alta influenciados pela recuperação mais forte da China. Mas não só isso.

“Países que têm contas fiscais em ordem e com boa sensibilidade às commodities”, explica Marchetti. Entre as moedas que devem se aproveitar da fraqueza global do dólar, ele cita a coroa norueguesa, o peso chileno e o peso colombiano.

A aposta do mercado é de que o dólar terá contra si o elevado estímulo monetário injetado pelo Federal Reserve (Fed), a recuperação mais frágil diante de uma segunda onda de covid-19 e a perspectiva de vitória do candidato democrata Joe Biden na eleição presidencial americana em novembro. Se Biden vencer, de fato, o pleito, o risco geopolítico se reduz, diminuindo o apetite pela moeda americana. Mas sem reduzir o risco fiscal e político, o real brasileiro pode perder esse bonde. 

*COLUNISTA DO BROADCAST

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